25/06/2007

Em tempo

Li uma notícia de que cinco jovens teriam agredido uma empregada doméstica às cinco da manhã, num ponto de ônibus, pensando se tratar de uma "vagabunda". Foi essa a "justificativa" dos meninos que têm em média 20 anos, moram em bairros nobres do RJ e levam uma vida, aparentemente, "normal".

A notícia deixa a sugestão que os "bad boys" teriam saído de uma rave e talvez estivessem alcoolizados o suficiente para que não possam responder responsavelmente pelo ocorrido. Ora, a bebida alccolica não cria nada, ela pode apenas rebaixar a crítica ou o auto-controle para que o que está latente encontre saída. Portanto o alcool nada cria de novo no psiquismo, somente "procria" o que fica guardado em compartimentos secretos. [A mesma construção de raciocínio poderia ser usada para pensarmos a TPM, apesar de se tratar de outro tipo de fenômeno, mas isso é papo pra outro post...]

É importante encontrarmos um lugar de pertencimento, de acolhida, de companheirismo e cumplicidade, tal qual esses jovens encontraram em seu meio. É bom termos amigos passionais... mas a cumplicidade do grupo em questão se revelou frágil ao serem confrontados com o resultado de seus atos. O primeiro moço encontrado pela polícia já delatou todos os outros. Abrem-se perguntas: Pra que "serve" um amigo? Até que ponto um amigo pode ser visto como cúmplice de algo que alguém decide fazer?

A construção de posicionamento responsável diante do outro, traduz-se num processo pra uma vida inteira. Esses jovens parecem estar há anos luz de distinguirem um outro que não seja a própria fantasia que se interpõe inevitavelmente ao se "ler" uma outra pessoa. O ocorrido com a moça no ponto de ônibus, delata uma fantasia da divisão clássica entre a "mulher santa e a puta", uma divisão que começa na infância do psiquismo masculino, que se preserva em imagens totais, e as vezes não encontra um desfecho favorável pro resto da vida.

Parece que os meninos justificaram o ato como: "desculpa aí, pensei que fosse uma vagabunda, não sabia se tratar de uma mulher que estava no ponto de ônibus pra ir no médico, porque, se fosse a prostituta, tudo se esclareceria, não?" Pra mim isso ainda choca! E sempre chocará porque não se trata de algo que se deve "acostumar", ainda que vigore dentro da "norma", do que há de comum na cultura vigente.

Será que alguma das gerações futuras poderá lidar melhor com essa cisão no afeto? Paralelamente existe uma quantidade significativa de mulher que veste um desses personagens na vida pública (e privada), reforçando essa fantasia purista da "santa" ou da "puta". Ninguém É santa ou puta, bandido ou herói, mas há quem se descreva e se posicione dentro de alguma dessas categorias maniqueístas, pra tentar se fazer reconhecer e respeitar, amar, pelo outro.

O imbróglio está posto: a camisa-de-força da famigerada "normalidade" privilegia certas ações (ou ações certas), esconde motivações e vela intensões que se constroem dentro das famílias, primeira célula social. É evidente que não funciona o "termômetro de sucesso" do ocidente que se norteia pelo êxito profissional e financeiro, entre posses, poses e rendas. Tudo que é visto como normal é apenas um constructo cultural em que a maioria está de acordo. É só isso. Antes desse ato bárbaro praticado por esses jovens, eles eram moços portadores de preconceitos (conceitos previamente engolidos e não mastigados) existentes em seus frágeis psiquismos "normais".

Mas creio num tempo futuro, no qual a honestidade possa, acima da verdade, vigorar nas relações a fim de lidarmos com o que produzimos, seja lá o que for, como disse Renato Russo: "não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a gente".

Um comentário:

Rodrigo disse...
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