"... com a insistência da vida em não seguir roteiros"
(Sérgio Dávila)
20/06/09
18/06/09
silêncio
complacente
conivente
estridente
entre dentes
comovente
displicente
contundente
simpático
empático
enigmático
gentil
hostil
frio
conivente
estridente
entre dentes
comovente
displicente
contundente
simpático
empático
enigmático
gentil
hostil
frio
02/06/09
EU
Redator de algo em mim, editor de coisas minhas.
Confessa ou nega o que passa em mim.
Permite e impede tudo que representa vida.
EU impotente; EU unipresente. EU reticente...
Eu quase sempre estou, as vezes Sou.
31/05/09
Só
Seu olho me chama
Sua boca me acorda
Meu corpo te clama
Minha alma concorda
Só me encontro
No seu peito
No seu gosto
No seu jeito
Olho que ri
Me desfacela
Só me deito
No seu leito
De singelos cuidados
Suaves afagos
Bruto desejo
Rasga a carne
Busca na Alma
Seiva que salva
Ente profundo
Perdido em mim
Enterra defuntos
Ávidos por fim
Se um deles acorda
Na sua vigília
Você o encontra
Logo o confronta
No gesto desmonta
Pra cova retorna
Viva me encontro
Livre de mim
Sua boca me acorda
Meu corpo te clama
Minha alma concorda
Só me encontro
No seu peito
No seu gosto
No seu jeito
Olho que ri
Me desfacela
Só me deito
No seu leito
De singelos cuidados
Suaves afagos
Bruto desejo
Rasga a carne
Busca na Alma
Seiva que salva
Ente profundo
Perdido em mim
Enterra defuntos
Ávidos por fim
Se um deles acorda
Na sua vigília
Você o encontra
Logo o confronta
No gesto desmonta
Pra cova retorna
Viva me encontro
Livre de mim
olhos que sorriem
pequenas coisas não são
coisas pequenas
pequenos gestos
afasta o terno
Detemos
meios de termos
modos
coisas pequenas
pequenos gestos
Eternos
temer os termosafasta o terno
Detemos
meios de termos
modos
24/05/09
05/05/09
Todo Amor Que Houver Nessa Vida
(Cazuza e Frejat)
Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós, na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia...
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia...
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio
O mel e a ferida
E o corpo inteiro feito um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente, não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria...
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E algum veneno anti-monotonia...
Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós, na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia...
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno anti-monotonia...
E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio
O mel e a ferida
E o corpo inteiro feito um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente, não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria...
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia
E algum veneno anti-monotonia...
04/05/09
!
19/04/09
...
Se a boca fala
e a língua cala
um zelo não se entalha
no cerne da malha
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
e a língua cala
um zelo não se entalha
no cerne da malha
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
12/04/09
lugar
na prática
a ética
é plástica
que volve situa
envolve atua
deprime afirma
confirma
um pórtico
não pático
nem plástico
que quebra
craquela
resseca.
desmonta
um algo
em guarda.
a ética
é plástica
que volve situa
envolve atua
deprime afirma
confirma
um pórtico
não pático
nem plástico
que quebra
craquela
resseca.
desmonta
um algo
em guarda.
10/04/09
por Bruna Lombardi
Sedução
Dentro de mim mora o animal
indômito e selvagem
que talvez te faça mal
talvez uma faísca
relâmpago no olhar
depressa como um susto
me desmascare o rosto
e de repente deixe exposto
o meu pior
em mim germina
uma força perigosa
que contamina
uma paixão vulgar
que corta o ar e que
nenhum poder domina
explode em mim
uma liberdade que te fascina
sopro de vida
brilho que se descortina
luz que cintila, lantejoula
purpurina
fugaz como um desejo
talvez te mate
talvez te salve
o veneno do meu beijo.
Dentro de mim mora o animal
indômito e selvagem
que talvez te faça mal
talvez uma faísca
relâmpago no olhar
depressa como um susto
me desmascare o rosto
e de repente deixe exposto
o meu pior
em mim germina
uma força perigosa
que contamina
uma paixão vulgar
que corta o ar e que
nenhum poder domina
explode em mim
uma liberdade que te fascina
sopro de vida
brilho que se descortina
luz que cintila, lantejoula
purpurina
fugaz como um desejo
talvez te mate
talvez te salve
o veneno do meu beijo.
20/01/09
?
A arte é a manifestação do que outrora existia sem matéria.
Há pessoas que topam colocar em movimento a flexibilidade do campo imaginativo.
Inventam, reconstroem sob o risco de serem taxadas de destrutivas, salientam passagens secretas para desfrutes inimagináveis.
Há pessoas que preferem contemplar quem faça isso. Podem instigar no outro o princípio do movimento descrito acima , mas preferem manter os glúteos fixos num só lugar, como expectadores.
Há pessoas que nem reconhecem o fenômeno. Elas conservam os órgão do sentido tão rígidos que somente validam objetos e eventos antigos, legendados.
Há tantas dessas pessoas em mim que mal posso me ver.
14/12/08
Vicky Cristina Barcelona
Nunca fui muito fã de Woody Allen. Seu estilo altamente verborrágico costuma me cansar. Demanda demais do raciocínio, esgota sinapses velhas e as novas que surgem diante de sua obra, são logo engolfadas pelas "explicações" psicologizantes no enredo. Mas gosto de alguns de seus filmes, quando ele consegue explorar outros modos relacionais que não as repetições habituais de sua auto-biografia. Foi assim que me senti diante do Vicky... no qual explora algumas possibilidades de Eros se fazer presente, seja por sua negação, seja pelo desespero, seja pela sua fugaz aparição que sempre nos deixa a sensação de que "falta algo". Mesmo quando não falta parece que, ainda assim, a insatisfação diante do "perfeito" prossegue. Quando o triângulo se estabiliza, o ideal romântico se impõe, ilustrado no filme pela "verdade" seguida à risca por Cristina: "Ela não sabia o que queria, mas sabia o que não queria". Esse filme retrata um tanto a emboscada da perfeição amorosa, denunciada por Jurandir Freire no livro "Sem Fraude, Nem Favor - Estudos sobre o Amor Romântico", no qual busca as origens históricas desse engodo em nossa cultura.
Há filmes que retratam; há os que remetem. Woody Allen retrata, conversa. Outras obras de outros autores e diretores me pegam pelas vísceras, sem me perguntarem nada. Prefiro estes.
Há filmes que retratam; há os que remetem. Woody Allen retrata, conversa. Outras obras de outros autores e diretores me pegam pelas vísceras, sem me perguntarem nada. Prefiro estes.
13/12/08
02/12/08
15/11/08
descompasso
Ana amava Pedro.
Pedro amava Pedro
pelo olhar de Ana.
Ana deixara de amar Pedro.
Ana amava um Marco.
Marco amava Telma.
Telma amava Telma
pelo olhar de Marco.
Marco deixara de amar Telma
Marco amava Marco.
Pedro passou a amar Ana.
Ana passou a amar Ana
pelo olhar de quem Ama.
Pedro amava Pedro
pelo olhar de Ana.
Ana deixara de amar Pedro.
Ana amava um Marco.
Marco amava Telma.
Telma amava Telma
pelo olhar de Marco.
Marco deixara de amar Telma
Marco amava Marco.
Pedro passou a amar Ana.
Ana passou a amar Ana
pelo olhar de quem Ama.
01/11/08
conceito

Li dois livro do Gabriel Gárcia Márquez, mas parece que comecei com esse autor pela porta dos fundos... Li o Memória de minhas putas tristes e o Viver pra contar - não sei se é esse o nome correto, é aquele... o auto-biográfico. Gostei, mas não me apaixonei. E ficava pensando: o que o povo viu que eu não vi nesse autor? Assim sendo, deixei de lado a idéia de ler o Cem Anos... e O amor nos tempos do cólera... Até ontem, quando vi o filme sobre esse último livro. Lindo! Apaixonante!
Me fez lembrar de uma amiga que estuda Merleau Ponty que defende a idéia de que a obra é maior que o autor. "O que" ou "como" Gabriel escolheu para contar de sua vida nos dois únicos livros que li, quase me afastaram por completo de me aproximar do melhor que ele fez.
O pior é que não é nem pre-conceito, foi caso de conceito errôneo mesmo. Peguei uma parte e lidei como se fosse o todo.
Mas... o filme salvou os livros.
Me fez lembrar de uma amiga que estuda Merleau Ponty que defende a idéia de que a obra é maior que o autor. "O que" ou "como" Gabriel escolheu para contar de sua vida nos dois únicos livros que li, quase me afastaram por completo de me aproximar do melhor que ele fez.
O pior é que não é nem pre-conceito, foi caso de conceito errôneo mesmo. Peguei uma parte e lidei como se fosse o todo.
Mas... o filme salvou os livros.
23/10/08
no cinema...
E dá pra viver sem filme? Não dá! Hoje vi um filme que, contrariamente ao que me provoca as aparições de nossa candidata à prefeitura, me deu uma sensação muito boa de ser mulher. Não me refiro ao gênero da espécie, mas por ser feita de uma carne que foge dos parâmetros em ruína do mundo estritamente masculino. Explico: há um princípio feminino de raciocínio e conduta que se fôsse ouvido mudaria o rumo das histórias congeladas.
Falo do filme Lemon Tree que discute a eterna conflitiva no território israelense. Uma mulher palestina luta pelo direito de ter sua história preservada através do pomar de limoeiros deixados pelo pai. Uma mulher judia entende sua luta e, desapotando as figuras de autoridade de Israel, manifesta seu apoio ao movimento "rival" da outra Mulher.
Outro filme da mostra que também vasculha esse campo através do romance entre um judeu e uma árabe é Estranhos. Lindíssimo! Sutil e sábio. A arte aponta o que a civilização não vê.
A arte cria, a civilização sublima... recria com o que já existe.
Conceitos paralelos, mas não sobrepostos.
E a Vida, o que é?
A Vida é Arte!
Falo do filme Lemon Tree que discute a eterna conflitiva no território israelense. Uma mulher palestina luta pelo direito de ter sua história preservada através do pomar de limoeiros deixados pelo pai. Uma mulher judia entende sua luta e, desapotando as figuras de autoridade de Israel, manifesta seu apoio ao movimento "rival" da outra Mulher.
Outro filme da mostra que também vasculha esse campo através do romance entre um judeu e uma árabe é Estranhos. Lindíssimo! Sutil e sábio. A arte aponta o que a civilização não vê.
A arte cria, a civilização sublima... recria com o que já existe.
Conceitos paralelos, mas não sobrepostos.
E a Vida, o que é?
A Vida é Arte!
20/10/08

Era uma vez um menino muito comilão. Em restaurantes, por exemplo, ficava tão confuso frente a imensa variedade oferecida no cardápio que cansava de ler e pedia que o acompanhante escolhesse por ele. Tão glutão que comendo macarrão pensava no frango e se flagrava prestando atenção no cheiro do vatapá da mesa ao lado.
Nenhuma roupa lhe caía bem... o menino ficava triste pois a menina que ele gostava estava afastada dele, movimento este que ele passou a chamar de "o momento dela". Ele só não tinha percebido que sempre que estava ao lado da menina, sua dispersão continuava, pois seus pensamentos vagavam pelas comidas ingeridas e pelas não provadas ainda.
A mãe levou o menino ao médico. O médico prescreveu um cardápio e um regime. O menino teria que descobrir outras fontes de satisfação que não a comida. Caminho difícil... imposto radicalmente. O que fazer?
Com uma vigilância permanente sobre o que colocaria na boca, o menino passou a ilusionar que comia. Da ilusão, passou à fantasia. Fantasiava fartas ceias, exuberantes almoços, repletos de apetitosas sobremesas. Transcorrido algum tempo, passou a se alimentar de sonhos. Dormia boa parte do tempo e sonhava.... com o pudim, com a cesta de pães, com o sorvete, com o fast food...
Pobre menino! A mãe e o médico estavam satisfeitos com o "sucesso" do tratamento. O menino perdia peso. Como a mãe só permitia que ele dormisse de olhos fechados à noite, o menino passou a fingir que estava acordado. Virou um sujeito ligado no automático, deixando o corpo no lugar onde colocavam, o pensamento na vilância dos atos, mas o sentimento capturado na comida, ou em sua fonte.
O fenômeno foi tomando uma proporção tamanha que o menino passou a se recusar a comer. Sempre que estava próximo a uma comida que lhe parecia apetitosa, mantinha-a distante para preferir imaginar o sabor, a consistência, o aroma...
Isolado em seu mundo entricheirado por comida, o menino automatizado só se deixava alimentar pela mãe sob a crença de que ela sabia o que era melhor para ele. Mas quando o menino ousava experimentar outro sabor, daqueles que tinha sonhado, sentia-se tão culpado que dava um jeito da mãe saber para que ralhasse com ele. Expiava sua culpa assim.
Assim passaram-se os meses, os anos, as décadas...Mudou de escola, de cidade, de país. No final da adolescência começou a cursar medicina. Especializou-se em cirurgia plástica e com o crescimento e mudanças hormonais, nem se deu conta que trocou a imagem do pensamento: da comida para mulheres. Perseverante em seu modo automático, provava algumas namoradas, servindo-as gentilmente a fim de tentar compensar o automatismo.
Automatismo ou continuísmo? Não é que o menino não tinha vontade própria. Tinha sim! Mas ficou tão acostumado a camuflar seus desejos que a voz própria lhe faltava à boca. Num vislumbre do núcleo de seus sentimentos e palavras emprestadas do invólucro de seus pensamentos, uma vez pronunciou: "Sou como um bulímico, como, como, como e digo que foi a comida que pulou na minha boca." Que baita confusão o menino se fazia!
Infenso à honestidade, o menino era farto em verdades.Desenvolveu o recurso da sedução para fazer-de-conta que construía elos afetivos. A "comida", que porventura lhe pulasse à boca, era mastigada, engulida ou cuspida, nunca saboreada.
Nunca conheci esse menino; ele nunca me viu. Soube da existência dele por livros, filmes e histórias. Mas já viu... quem conta um conto....
Nenhuma roupa lhe caía bem... o menino ficava triste pois a menina que ele gostava estava afastada dele, movimento este que ele passou a chamar de "o momento dela". Ele só não tinha percebido que sempre que estava ao lado da menina, sua dispersão continuava, pois seus pensamentos vagavam pelas comidas ingeridas e pelas não provadas ainda.
A mãe levou o menino ao médico. O médico prescreveu um cardápio e um regime. O menino teria que descobrir outras fontes de satisfação que não a comida. Caminho difícil... imposto radicalmente. O que fazer?
Com uma vigilância permanente sobre o que colocaria na boca, o menino passou a ilusionar que comia. Da ilusão, passou à fantasia. Fantasiava fartas ceias, exuberantes almoços, repletos de apetitosas sobremesas. Transcorrido algum tempo, passou a se alimentar de sonhos. Dormia boa parte do tempo e sonhava.... com o pudim, com a cesta de pães, com o sorvete, com o fast food...
Pobre menino! A mãe e o médico estavam satisfeitos com o "sucesso" do tratamento. O menino perdia peso. Como a mãe só permitia que ele dormisse de olhos fechados à noite, o menino passou a fingir que estava acordado. Virou um sujeito ligado no automático, deixando o corpo no lugar onde colocavam, o pensamento na vilância dos atos, mas o sentimento capturado na comida, ou em sua fonte.
O fenômeno foi tomando uma proporção tamanha que o menino passou a se recusar a comer. Sempre que estava próximo a uma comida que lhe parecia apetitosa, mantinha-a distante para preferir imaginar o sabor, a consistência, o aroma...
Isolado em seu mundo entricheirado por comida, o menino automatizado só se deixava alimentar pela mãe sob a crença de que ela sabia o que era melhor para ele. Mas quando o menino ousava experimentar outro sabor, daqueles que tinha sonhado, sentia-se tão culpado que dava um jeito da mãe saber para que ralhasse com ele. Expiava sua culpa assim.
Assim passaram-se os meses, os anos, as décadas...Mudou de escola, de cidade, de país. No final da adolescência começou a cursar medicina. Especializou-se em cirurgia plástica e com o crescimento e mudanças hormonais, nem se deu conta que trocou a imagem do pensamento: da comida para mulheres. Perseverante em seu modo automático, provava algumas namoradas, servindo-as gentilmente a fim de tentar compensar o automatismo.
Automatismo ou continuísmo? Não é que o menino não tinha vontade própria. Tinha sim! Mas ficou tão acostumado a camuflar seus desejos que a voz própria lhe faltava à boca. Num vislumbre do núcleo de seus sentimentos e palavras emprestadas do invólucro de seus pensamentos, uma vez pronunciou: "Sou como um bulímico, como, como, como e digo que foi a comida que pulou na minha boca." Que baita confusão o menino se fazia!
Infenso à honestidade, o menino era farto em verdades.Desenvolveu o recurso da sedução para fazer-de-conta que construía elos afetivos. A "comida", que porventura lhe pulasse à boca, era mastigada, engulida ou cuspida, nunca saboreada.
Nunca conheci esse menino; ele nunca me viu. Soube da existência dele por livros, filmes e histórias. Mas já viu... quem conta um conto....
16/10/08
Pessoa
A Dor é do Poeta ou da Poesia?
(por Fernando Pessoa)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
(por Fernando Pessoa)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
11/10/08
mata
mata adentro
mundo aflora
um arrebata
outro deplora
um arremata
outro desmata
mundo adentro
vida afora
mundo aflora
um arrebata
outro deplora
um arremata
outro desmata
mundo adentro
vida afora
mais Machado
em: "A mão e a luva"
"Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
"Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
08/10/08
princípio
A vida é dura! Pra todo mundo! Independente do gênero da espécie: homens e mulheres têm que se virar para dar conta de trabalhar, estudar, cuidar de casa, boa educação dos filhos, aquisição e preservação de patrimônios. Aliás, a palavra "patrimônio" vem do latim patrimonius e tem por significado: herança paterna; bens de família; bens necessários para ordenar um eclesiástico; dote dos ordinandos; propriedade. Caberia falar em "patrimônio" na subjetividade?
Qual seria então a palavra que designaria bens acumulados para o viver bem?
Na certa, não seria seu correlato oposto "matrimônio", pois nesta passagem o sentido na cultura se esvai: união legítima do homem com a mulher; casamento; consórcio; sacramento da Igreja que valida, perante Deus, a união conjugal.
Jesus! Não há palavra na cultura para validar essa herança?
Mudando de pato pra ganço, como diz minha mãe, estava eu ouvindo em alto volume meu Paco de Lucia no carro (música boa não consigo ouvir baixo... acho um desperdício!), quando embiquei na garagem na espera do portão se abrir. Havia uma reunião de pessoas uniformizadas, denotando uma configuração legítima de trabalho. Uma cabeça se volta para a música, os olhos de uma mulher se voltam para o meu carro e ela sorri para mim.
Envorganhada por, inadvertidamente, invadir a tal reunião de trabalho, abaixei o volume do som. A mulher voltou seus olhos para o sujeito que falava ao grupo, não sem antes balançar a cabeça positivamente olhando para mim.
Pequeno gesto de encontro.
Paco de Lucia não serve pra nada quanto ao trabalho que o grupo de pessoas terá que desenvolver. Mas foi um princípio feminino que reconheceu sua presença no ambiente. Princípio que, graças ao deuses, não é de uso capião da mulher, do contrário não existiria Paco de Lucia.
Qual a compatibilidade desse princípio que colore a vida e que não cabe no patrimônio?
Que as próximas gerações nos ensinem.... Amém!
Qual seria então a palavra que designaria bens acumulados para o viver bem?
Na certa, não seria seu correlato oposto "matrimônio", pois nesta passagem o sentido na cultura se esvai: união legítima do homem com a mulher; casamento; consórcio; sacramento da Igreja que valida, perante Deus, a união conjugal.
Jesus! Não há palavra na cultura para validar essa herança?
Mudando de pato pra ganço, como diz minha mãe, estava eu ouvindo em alto volume meu Paco de Lucia no carro (música boa não consigo ouvir baixo... acho um desperdício!), quando embiquei na garagem na espera do portão se abrir. Havia uma reunião de pessoas uniformizadas, denotando uma configuração legítima de trabalho. Uma cabeça se volta para a música, os olhos de uma mulher se voltam para o meu carro e ela sorri para mim.
Envorganhada por, inadvertidamente, invadir a tal reunião de trabalho, abaixei o volume do som. A mulher voltou seus olhos para o sujeito que falava ao grupo, não sem antes balançar a cabeça positivamente olhando para mim.
Pequeno gesto de encontro.
Paco de Lucia não serve pra nada quanto ao trabalho que o grupo de pessoas terá que desenvolver. Mas foi um princípio feminino que reconheceu sua presença no ambiente. Princípio que, graças ao deuses, não é de uso capião da mulher, do contrário não existiria Paco de Lucia.
Qual a compatibilidade desse princípio que colore a vida e que não cabe no patrimônio?
Que as próximas gerações nos ensinem.... Amém!
01/10/08
28/09/08
será Vulto?
Nada vago
tudo em voga
Sua voz roça
minha tez
Calado açoite
de cálida fonte
molha um olho
outro esconde
te gosto mesmo
sem as idéias,
lógica à esmo
parada em aldeias
enfim, um fim
se lá ou cá
dúvida sempre
se algo de mim
tudo em voga
Sua voz roça
minha tez
Calado açoite
de cálida fonte
molha um olho
outro esconde
te gosto mesmo
sem as idéias,
lógica à esmo
parada em aldeias
enfim, um fim
se lá ou cá
dúvida sempre
se algo de mim
14/09/08
escrita
"Diferentemente da fala, a escrita é significado que se libertou de sua fonte."
(Terry Eagleton)
HIATUS IRRATIONALIS

De J.Lacan
Coisas, que corram em vós o suor ou a seiva,
Formas, que nascidas sejam da forja ou do sangue,
Vossa torrente não é mais densa que meu sonho;
E, se não os oprimo com um desejo incessante,
Atravesso vossa água, desabo na areia,
onde me atrai o peso do meu demônio pensante.
Só, ele bate no duro chão onde o ser se eleva,
Ao mal cego e surdo, ao deus privado de sentido.
Mas, assim que perece todo verbo na minha garganta,
Coisas, que nascidas sejam do sangue ou da forja,
Natureza, eu me perco no fluxo de um elemento:
Este que aninha em mim, o mesmo vos subleva,
Formas, que corram em vós o suor ou a seiva,
é o fogo que me faz vosso imortal amante.
Coisas, que corram em vós o suor ou a seiva,
Formas, que nascidas sejam da forja ou do sangue,
Vossa torrente não é mais densa que meu sonho;
E, se não os oprimo com um desejo incessante,
Atravesso vossa água, desabo na areia,
onde me atrai o peso do meu demônio pensante.
Só, ele bate no duro chão onde o ser se eleva,
Ao mal cego e surdo, ao deus privado de sentido.
Mas, assim que perece todo verbo na minha garganta,
Coisas, que nascidas sejam do sangue ou da forja,
Natureza, eu me perco no fluxo de um elemento:
Este que aninha em mim, o mesmo vos subleva,
Formas, que corram em vós o suor ou a seiva,
é o fogo que me faz vosso imortal amante.
13/09/08
Caso de faculdade

Conheceram-se na faculdade de Letras. Já não lembravam ao certo como se apresentaram, mas parece que em ambas versões aparecia como pretexto um trabalho solicitado na disciplina de Comunicação Intermitente. A professora dessa matéria electiva solicitou aos alunos que escolhessem um interlocutor em sala e com ele trocasse, durante um semestre, algumas cartas cuja temática seria eleita por ambos. Assim, talvez porque sentavam próximos, escolheram-se.
Nas primeiras missivas deixaram com que os assuntos bailassem por campos variados de conhecimentos, preferências, numa verborragia sobre o óbvio. Com o passar do tempo, as cartas foram se modelando como uma massa de argila que vai tomando forma conforme o tato, a umidade e intensidade das mãos que a toca.
Eles não perceberam que sorrateiramente terrenos obscuros escancaravam-se nas letras. Uma série de símbolos resultavam em frases reveladoras à mão, ao corpo e alma do escriba.
O interessante é que a comunicação verbal entre ambos parecia não se beneficiar do conteúdo das cartas; aqueles dois se utilizaram um do outro para dar vida a personagens romanescos confinados ao papel.
Passados meses de intensos solilóquios, juntaram parte do material, entregaram os escritos e continuaram sentados próximos um ao outro sem jamais se apresentarem pra além da liquidez da letra.
Entre uma literal entrega e uma entrega literária, preferiram a segunda.
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