A Dor é do Poeta ou da Poesia?
(por Fernando Pessoa)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
16/10/2008
11/10/2008
mata
mata adentro
mundo aflora
um arrebata
outro deplora
um arremata
outro desmata
mundo adentro
vida afora
mundo aflora
um arrebata
outro deplora
um arremata
outro desmata
mundo adentro
vida afora
mais Machado
em: "A mão e a luva"
"Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
"Sonhará uns amores de romance, quase impossíveis? digo-lhe que faz mal, que é melhor, muito melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
08/10/2008
princípio
A vida é dura! Pra todo mundo! Independente do gênero da espécie: homens e mulheres têm que se virar para dar conta de trabalhar, estudar, cuidar de casa, boa educação dos filhos, aquisição e preservação de patrimônios. Aliás, a palavra "patrimônio" vem do latim patrimonius e tem por significado: herança paterna; bens de família; bens necessários para ordenar um eclesiástico; dote dos ordinandos; propriedade. Caberia falar em "patrimônio" na subjetividade?
Qual seria então a palavra que designaria bens acumulados para o viver bem?
Na certa, não seria seu correlato oposto "matrimônio", pois nesta passagem o sentido na cultura se esvai: união legítima do homem com a mulher; casamento; consórcio; sacramento da Igreja que valida, perante Deus, a união conjugal.
Jesus! Não há palavra na cultura para validar essa herança?
Mudando de pato pra ganço, como diz minha mãe, estava eu ouvindo em alto volume meu Paco de Lucia no carro (música boa não consigo ouvir baixo... acho um desperdício!), quando embiquei na garagem na espera do portão se abrir. Havia uma reunião de pessoas uniformizadas, denotando uma configuração legítima de trabalho. Uma cabeça se volta para a música, os olhos de uma mulher se voltam para o meu carro e ela sorri para mim.
Envorganhada por, inadvertidamente, invadir a tal reunião de trabalho, abaixei o volume do som. A mulher voltou seus olhos para o sujeito que falava ao grupo, não sem antes balançar a cabeça positivamente olhando para mim.
Pequeno gesto de encontro.
Paco de Lucia não serve pra nada quanto ao trabalho que o grupo de pessoas terá que desenvolver. Mas foi um princípio feminino que reconheceu sua presença no ambiente. Princípio que, graças ao deuses, não é de uso capião da mulher, do contrário não existiria Paco de Lucia.
Qual a compatibilidade desse princípio que colore a vida e que não cabe no patrimônio?
Que as próximas gerações nos ensinem.... Amém!
Qual seria então a palavra que designaria bens acumulados para o viver bem?
Na certa, não seria seu correlato oposto "matrimônio", pois nesta passagem o sentido na cultura se esvai: união legítima do homem com a mulher; casamento; consórcio; sacramento da Igreja que valida, perante Deus, a união conjugal.
Jesus! Não há palavra na cultura para validar essa herança?
Mudando de pato pra ganço, como diz minha mãe, estava eu ouvindo em alto volume meu Paco de Lucia no carro (música boa não consigo ouvir baixo... acho um desperdício!), quando embiquei na garagem na espera do portão se abrir. Havia uma reunião de pessoas uniformizadas, denotando uma configuração legítima de trabalho. Uma cabeça se volta para a música, os olhos de uma mulher se voltam para o meu carro e ela sorri para mim.
Envorganhada por, inadvertidamente, invadir a tal reunião de trabalho, abaixei o volume do som. A mulher voltou seus olhos para o sujeito que falava ao grupo, não sem antes balançar a cabeça positivamente olhando para mim.
Pequeno gesto de encontro.
Paco de Lucia não serve pra nada quanto ao trabalho que o grupo de pessoas terá que desenvolver. Mas foi um princípio feminino que reconheceu sua presença no ambiente. Princípio que, graças ao deuses, não é de uso capião da mulher, do contrário não existiria Paco de Lucia.
Qual a compatibilidade desse princípio que colore a vida e que não cabe no patrimônio?
Que as próximas gerações nos ensinem.... Amém!
01/10/2008
28/09/2008
será Vulto?
Nada vago
tudo em voga
Sua voz roça
minha tez
Calado açoite
de cálida fonte
molha um olho
outro esconde
te gosto mesmo
sem as idéias,
lógica à esmo
parada em aldeias
enfim, um fim
se lá ou cá
dúvida sempre
se algo de mim
tudo em voga
Sua voz roça
minha tez
Calado açoite
de cálida fonte
molha um olho
outro esconde
te gosto mesmo
sem as idéias,
lógica à esmo
parada em aldeias
enfim, um fim
se lá ou cá
dúvida sempre
se algo de mim
14/09/2008
escrita
"Diferentemente da fala, a escrita é significado que se libertou de sua fonte."
(Terry Eagleton)
HIATUS IRRATIONALIS

De J.Lacan
Coisas, que corram em vós o suor ou a seiva,
Formas, que nascidas sejam da forja ou do sangue,
Vossa torrente não é mais densa que meu sonho;
E, se não os oprimo com um desejo incessante,
Atravesso vossa água, desabo na areia,
onde me atrai o peso do meu demônio pensante.
Só, ele bate no duro chão onde o ser se eleva,
Ao mal cego e surdo, ao deus privado de sentido.
Mas, assim que perece todo verbo na minha garganta,
Coisas, que nascidas sejam do sangue ou da forja,
Natureza, eu me perco no fluxo de um elemento:
Este que aninha em mim, o mesmo vos subleva,
Formas, que corram em vós o suor ou a seiva,
é o fogo que me faz vosso imortal amante.
Coisas, que corram em vós o suor ou a seiva,
Formas, que nascidas sejam da forja ou do sangue,
Vossa torrente não é mais densa que meu sonho;
E, se não os oprimo com um desejo incessante,
Atravesso vossa água, desabo na areia,
onde me atrai o peso do meu demônio pensante.
Só, ele bate no duro chão onde o ser se eleva,
Ao mal cego e surdo, ao deus privado de sentido.
Mas, assim que perece todo verbo na minha garganta,
Coisas, que nascidas sejam do sangue ou da forja,
Natureza, eu me perco no fluxo de um elemento:
Este que aninha em mim, o mesmo vos subleva,
Formas, que corram em vós o suor ou a seiva,
é o fogo que me faz vosso imortal amante.
13/09/2008
Caso de faculdade

Conheceram-se na faculdade de Letras. Já não lembravam ao certo como se apresentaram, mas parece que em ambas versões aparecia como pretexto um trabalho solicitado na disciplina de Comunicação Intermitente. A professora dessa matéria electiva solicitou aos alunos que escolhessem um interlocutor em sala e com ele trocasse, durante um semestre, algumas cartas cuja temática seria eleita por ambos. Assim, talvez porque sentavam próximos, escolheram-se.
Nas primeiras missivas deixaram com que os assuntos bailassem por campos variados de conhecimentos, preferências, numa verborragia sobre o óbvio. Com o passar do tempo, as cartas foram se modelando como uma massa de argila que vai tomando forma conforme o tato, a umidade e intensidade das mãos que a toca.
Eles não perceberam que sorrateiramente terrenos obscuros escancaravam-se nas letras. Uma série de símbolos resultavam em frases reveladoras à mão, ao corpo e alma do escriba.
O interessante é que a comunicação verbal entre ambos parecia não se beneficiar do conteúdo das cartas; aqueles dois se utilizaram um do outro para dar vida a personagens romanescos confinados ao papel.
Passados meses de intensos solilóquios, juntaram parte do material, entregaram os escritos e continuaram sentados próximos um ao outro sem jamais se apresentarem pra além da liquidez da letra.
Entre uma literal entrega e uma entrega literária, preferiram a segunda.
12/09/2008
trecho de Helena
de Machado de Assis
"O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso."
"O melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso."
17/08/2008
03/07/2008
na Moska!
Aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento.
Relações de dependência e submissão, paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo,
E pensam que o amor é alguma coisa
que pode ser definida, explicada, entendida, julgada.
Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro,
Antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor nos domine?
Minha resposta? o amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
O amor será sempre o desconhecido,
A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido, quer ser violado,
Quer ser transformado a cada instante.
A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
Decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
E nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor, não podemos castrá-lo.
O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha
E nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu
Como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha. como uma aurora colorida e misteriosa,
Como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,
O amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio
Porque somos o alimento preferido do amor,
Se estivermos também a devorá-lo.
O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo no seu abismo,
Me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.
Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto.
17/06/2008
Sabotagem

Te vejo sorrindo, mexendo com toque. Me achego. Você me aconchega de um tanto que desconheço. Alguém se atirou da janela do carro. Você me olha, convite. Quero ir mas não sei onde. Você chegou e preferi acompanhar seu trajeto parando na porta. Você entrou e eu fiquei, paralisia mórbida. Riso de desconforto. Sem lágrimas, sem som, sem Dom. Cheiro de café por fazer. Restos de uma taça de vinho bebido, com cacos de corpos espalhados caídos. Se cola o espírito, desmancha a saliva. Prepara a língua para lamber fendas adquiridas. Resíduos entrecortados de falas perdidas. Vícios de trato. Óleo guardado pra engrenagens de maquinário usado por outros corpos. Despeja-se o líquido, fica-se com o rótulo.
17/05/2008
Pablo Neruda ( in Confesso que vivi)

... sim senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derroto-as... Amo tanto as palavras... as inesperadas... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata , são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato , sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não esperava e que lhe obedeceu... Têm sombra, transparência, peso, plumas, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiquíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras, como pedrinhas, as palavras, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.
20/01/2008
Paixão versus Amor
Por Contardo Calligaris
Comentário sobre o filme "Closer - Perto Demais" publicado na Folha de São Paulo
Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas “Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a “Closer - Perto Demais".
1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.
2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar _não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.
3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.
4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.
5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.
Comentário sobre o filme "Closer - Perto Demais" publicado na Folha de São Paulo
Concordo com Caetano Veloso, "de perto ninguém é normal". Mas “Closer - Perto Demais", de Mike Nichols, me deixou pensando diferente: de perto, somos normais demais.O filme é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais. Se você quer saber por que, em regra, somos infelizes em amor, não perca.Para não estragar o prazer de quem não viu o filme, nada de resumo, apenas as reflexões fragmentárias com as quais passei a noite, depois de ter assistido a “Closer - Perto Demais".
1) Por que, no meio de uma história amorosa que funciona, um encontro (que sempre parece mágico) pode levar alguém a trocar a intimidade de um casal companheiro por uma visão?Os evolucionistas dizem que os homens são infiéis por necessidade biológica. Para que a espécie continue, os machos seriam programados com o desejo de fecundar todas as fêmeas possíveis. A teoria tem uma falha: as mulheres são tão infiéis quanto os homens (embora os homens se recusem a acreditar nessa banalidade).O senso comum tem outra explicação: a paixão iria se apagando com a repetição, os humanos gostariam de novidade. Pequeno problema: a idéia de que a novidade seja um valor é especificamente moderna; no entanto a inconstância em amor é um hábito antigo. Outro problema ainda maior: na condução de nossas vidas, somos obstinadamente repetitivos. Insistimos nas mesmas fantasias e nos mesmos sintomas. Contrariamente ao que diz o provérbio, errar é divino, perseverar é humano. Por que seria diferente em matéria amorosa? Como pode ser que um encontro, em que mal se sabe quem é o outro ou a outra, contenha uma promessa que basta para levar alguém a dar um chute num amor que dura?Tento responder: apaixonar-se é idealizar o outro, durar no amor é lidar com a realidade do amado ou da amada. Antes de ponderar os charmes da idealização, duas observações.
Um impasse: para manter a paixão, devo continuar idealizando o parceiro. Mas, para idealizar o outro, devo mantê-lo a distância. Se mantenho o outro a distância, renuncio aos prazeres de amor, companheirismo, cumplicidade, convivência.Um paradoxo: se me separo porque me apaixono por outra ou outro, o parceiro que deixei se distancia de mim, portanto volto a idealizá-lo e a me apaixonar por ele.
2) Por que gostaríamos tanto de idealizar o outro que vislumbramos num novo encontro? Uma nova paixão amorosa é provavelmente o sentimento que mais pode nos transformar, para o bem ou para o mal. Por exemplo, se o outro me idealiza, carrego seu ideal como um casaco novo: modifico minha postura para que o pano caia bem no meu corpo. De uma certa forma, tento me parecer com o ideal que o outro ama em mim.Cada amor, quando começa, é uma aventura. Não porque encontro um novo parceiro, mas porque, ao me apaixonar, descubro ou invento um novo ideal e, ao ser amado, mudo para me aproximar do que o outro imagina que eu seja.A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar _não de trocar de parceiro, mas de se reinventar.Não é estranho que, na hora em que um amor começa, alguém decida se dar um novo nome. Nenhuma mentira nisso, apenas a convicção e a esperança de que a paixão nos transforme.Infelizmente, mudar é difícil: a sedução exercida pelos novos amores é uma veleidade, um pouco como as resoluções de que as coisas serão diferentes no ano que começa.
3) Dizem que um casal que se ama briga muito. O uso erótico das brigas é conhecido: a paz se faz na cama. Menos conhecido é o uso amoroso das brigas: chegar ao limite da ruptura pode ser um jeito de recomeçar, de voltar ao momento inicial da paixão, quando ambos esperavam que o amor os transformasse.Problema: ninguém sabe qual é o ponto de equilíbrio além do qual as brigas não garantem renovação nenhuma, apenas desgastam um amor que se perde.
4) Alguém se apaixona por outra pessoa porque, ele se queixa, sua parceira precisa dele. É aquela coisa: seu amor me exige demais, você me sufoca, me prende. Isso, é claro, é um jeito de dizer: com você sou sempre o mesmo. Também é uma projeção: separo-me porque não agüento minha própria dependência de você. Visto que me detesto por estar a fim de lhe pedir amor a cada minuto, acho intolerável que você me peça. Quem pensa e age assim, em geral, fica sozinho no fim.
5) Um homem volta para o lar depois de ter estado nos braços de outra. Sua mulher pergunta: você me ama ainda? Ela tem razão, é a única pergunta que importa.Uma mulher volta para o lar depois de ter estado nos braços de outro. Seu homem pergunta: você esteve com ele? Insiste: quero a verdade. Pede os detalhes: gostou? Gozou? Onde aconteceu, em que posição, quantas vezes?O ciúme feminino é uma exigência amorosa. O ciúme do homem é uma competição com o outro, um duelo de espadas, uma esgrima homossexual que tem pouco a ver com o amor pela amada e muito a ver com as excitantes lutinhas masculinas da infância.Enfim, quem sabe o filme nos ajude a inventar jeitos de amar menos desafortunados e mais interessantes.
26/12/2007
Ode Aos Ratos
Com inveja confessa publico o que o Chico conseguiu fazer, em 3min e 30 seg de música: um sensível tratado sobre o impacto da violência em nossas vidas.
Chico Buarque
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque
Rato de rua
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago
Atrás do seu quinhão
Vão aos magotes
A dar com um pau
Levando o terror
Do parking ao living
Do shopping center ao léu
Do cano de esgoto
Pro topo do arranha-céu
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão
Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão
Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato
Chico Buarque
Composição: Edu Lobo / Chico Buarque
Rato de rua
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago
Atrás do seu quinhão
Vão aos magotes
A dar com um pau
Levando o terror
Do parking ao living
Do shopping center ao léu
Do cano de esgoto
Pro topo do arranha-céu
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão
Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão
Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato
10/12/2007
alterar-ação
Parte de mim é folha
Que do ar vem caindo,
Pela árvore largada.
Parte de mim é menino
Sentindo-se inteiro, feliz,
Fitando-se no olhar amado.
Parte de mim são flores,
Vermelhas e primaveris,
Celebradas por colibris.
Parte de mim é o homem,
Um forte pai protetor,
Cuidando de seus rebentos.
Parte de mim é o rapaz,
Em recatos e recantos
Em algum canto do jardim.
Parte de mim é o branco
Papel, poema em espera,
Um perfume de alecrim.
Parte de mim nem sabe,
de tantas partes vou feito,
o que mesmo sou, direito.
Eu só sei, Senhora, que,
De um ou de outro jeito,
Só seu, por inteiro, sou.
(Por: Gregor Mencken)
TUDO que no contato, mexe com tato,
Remexe a letra, contorce a rima,
Reverte a ampulheta:
Parte de mim é folha
de tantas partes vou feito,
em algum canto do jardim.
Parte de mim é o branco,
de um ou de outro jeito,
papel, poema em espera.
Parte de mim é menino,
que do ar vem caindo
Em recatos e recantos.
Parte de mim nem sabe,
um perfume de alecrim
cuidando de seus rebentos.
Parte de mim são flores
pela árvore largada,
parte de mim é o homem
Só seu, por inteiro, sou
o que mesmo sou, direito
Fitando-se no olhar amado
(por: Elaine)
Que do ar vem caindo,
Pela árvore largada.
Parte de mim é menino
Sentindo-se inteiro, feliz,
Fitando-se no olhar amado.
Parte de mim são flores,
Vermelhas e primaveris,
Celebradas por colibris.
Parte de mim é o homem,
Um forte pai protetor,
Cuidando de seus rebentos.
Parte de mim é o rapaz,
Em recatos e recantos
Em algum canto do jardim.
Parte de mim é o branco
Papel, poema em espera,
Um perfume de alecrim.
Parte de mim nem sabe,
de tantas partes vou feito,
o que mesmo sou, direito.
Eu só sei, Senhora, que,
De um ou de outro jeito,
Só seu, por inteiro, sou.
(Por: Gregor Mencken)
TUDO que no contato, mexe com tato,
Remexe a letra, contorce a rima,
Reverte a ampulheta:
Parte de mim é folha
de tantas partes vou feito,
em algum canto do jardim.
Parte de mim é o branco,
de um ou de outro jeito,
papel, poema em espera.
Parte de mim é menino,
que do ar vem caindo
Em recatos e recantos.
Parte de mim nem sabe,
um perfume de alecrim
cuidando de seus rebentos.
Parte de mim são flores
pela árvore largada,
parte de mim é o homem
Só seu, por inteiro, sou
o que mesmo sou, direito
Fitando-se no olhar amado
(por: Elaine)
25/10/2007
Des-conto
Olhou-a. Desejou-a. Aproximou-se.
Ela o via vagamente familiar e interessante.
Falaram de tudo um pouco, dizendo-se mutuamente.
O rumo da história se encarregou dos rompantes.
Ela: tempo sacro.
Ele: tempo inexistente: Mata-Dor.
Tentou matá-la no ato: futuro ausente.
Ela se fez presente.
Despediram-se a tempo de manterem-se
tal como antes do encontro.
Triunfo do passado dormente.
22/10/2007
aportar...
Subiu as escadas escuras daquele prédio cheio de esquinas. Não sabia ao certo qual o andar, tão pouco qual o lugar. Mas seguiu. Parou em frente a uma porta. Desconhecia a maneira como se deu essa escolha; algo nela sabia que era aquela a passagem. Tentou a entrada girando a maçaneta. Estava trancada. Bateu. Bateu mais forte. Nada. Bateu até sentir que os punhos lhe doíam e as unhas já marcavam a carne, de certa forma. Uma voz, lá de dentro, disse: Está aberta, entre. Girou a maçaneta novamente; nada. Bateu novamente. A mesma voz, um tanto irritadiça, respondeu: Já disse que está aberta, entre! Tentou. Nada. Um tanto confusa, sem saber em qual verdade se pautar, se na versão da voz de dentro ou na realidade vivenciada com dificuldade, parou um tanto seus movimentos. Insistir se traduziria na crença de que poderia abrir uma porta que não abriu anteriormente. Insano, pensou. Desistir não lhe era concedido. Estava fadada a tentar. Resolveu procurar um meio, uma chave, talvez alguma dos chaveiros antigos que carregava junto a si. Fez uma prévia seleção pela forma, analisou espessura e história. Tentou várias até que uma delas entrou. Mas não girou. Se forçasse não adiantaria. A chave se partiria, inutilizando a abertura - uma minúscula fenda que interligava dois mundos. Procurou outras chaves em sua bolsa. Nenhuma parecia se encaixar à necessidade. Encontrou num grampo, perdido num fundo falso da bolsa, o pensamento mágico da transmutação. Lembrou dos filmes em preto e branco da infância e da promessa de saída com final feliz. A porta lhe era familiar, mas seu colorido, estranho. O grampo não serviria. Tinha conhecimento que finais felizes não existiam: O final é a Morte, inexoravelmente. Sabia que felicidade se constitui no hiato entre o medo do nascimento de algo e seu término trágico.
Do grampo, passou à tampa da caneta. Entortou a tampa, a caneta e a escrita; e nesse instante pensou vislumbrar uma luminosidade diferente no interior do recinto vedado pela porta que se mantinha, hermeticamente, fechada. Estava a ponto de desistir. Cansada... A Voz de dentro pareceu notar o intervalo expandido nas tentativas e questionou: E aí, desistiu? Nesse ponto, a confusão era tamanha que não havia possibilidade de ouvir essa fala sem um viés irônico. Uma pergunta genuína parecia um deboche. Brigou com a voz. A voz se posicionou: Sei que é possível abrir, com quê recurso, não sei. Você tentará inúmeras vezes, fará do engano o mote que desvela sua pretensa vigília. Adormecerá estranha para acordar diferente em alguns momentos.
Como num corte de tempo, de repente se deu conta da existência de outras pessoas circulando pelo corredor daquele edifício. Há quanto tempo estariam estas pessoas ao redor, sem que nunca as tivesse notado? Decidiu-se por interpelar um dos transeuntes a fim de auxiliá-la. O primeiro garantiu: Tenho a chave... Era um homem que emanava convicção e profundo conhecimento de fendas e seus derivados. O contato lhe possibilitou pensar no outro com sua porta, descobertas e entraves. Desfrutou de sua presença, até perceber que essa união só se manteria se desistisse de lembrar de sua própria porta. Com muita dor, cônscia da solidão que se instalaria, pediu ao ilustre transeunte que se afastasse.
Outros vieram e, no contato, tentava identificar o que importa... Ficar junto a algumas daquelas figuras, era, por vezes, gratificante. Regularmente escutava rumores do recinto contíguo separado pela porta. Percebeu que o outro é parte da chave. Tratou de se olhar com crítica, mas com uma certa tolerância e compaixão.
Então houve um que não a inquiriu, nem julgou e nada lhe prometeu, mas a ela devotou o espelho da alma que atrela dois seres pela supremacia de suas diferenças; abriu o campo da fala da falta confessa em cada um, realizando o prazer do encontro na troca. Cada ínfimo detalhe parecia apontar para o contrário de tudo que pensara sobre si e nesse instante, como por mágica, a Porta se abriu.
Do grampo, passou à tampa da caneta. Entortou a tampa, a caneta e a escrita; e nesse instante pensou vislumbrar uma luminosidade diferente no interior do recinto vedado pela porta que se mantinha, hermeticamente, fechada. Estava a ponto de desistir. Cansada... A Voz de dentro pareceu notar o intervalo expandido nas tentativas e questionou: E aí, desistiu? Nesse ponto, a confusão era tamanha que não havia possibilidade de ouvir essa fala sem um viés irônico. Uma pergunta genuína parecia um deboche. Brigou com a voz. A voz se posicionou: Sei que é possível abrir, com quê recurso, não sei. Você tentará inúmeras vezes, fará do engano o mote que desvela sua pretensa vigília. Adormecerá estranha para acordar diferente em alguns momentos.
Como num corte de tempo, de repente se deu conta da existência de outras pessoas circulando pelo corredor daquele edifício. Há quanto tempo estariam estas pessoas ao redor, sem que nunca as tivesse notado? Decidiu-se por interpelar um dos transeuntes a fim de auxiliá-la. O primeiro garantiu: Tenho a chave... Era um homem que emanava convicção e profundo conhecimento de fendas e seus derivados. O contato lhe possibilitou pensar no outro com sua porta, descobertas e entraves. Desfrutou de sua presença, até perceber que essa união só se manteria se desistisse de lembrar de sua própria porta. Com muita dor, cônscia da solidão que se instalaria, pediu ao ilustre transeunte que se afastasse.
Outros vieram e, no contato, tentava identificar o que importa... Ficar junto a algumas daquelas figuras, era, por vezes, gratificante. Regularmente escutava rumores do recinto contíguo separado pela porta. Percebeu que o outro é parte da chave. Tratou de se olhar com crítica, mas com uma certa tolerância e compaixão.
Então houve um que não a inquiriu, nem julgou e nada lhe prometeu, mas a ela devotou o espelho da alma que atrela dois seres pela supremacia de suas diferenças; abriu o campo da fala da falta confessa em cada um, realizando o prazer do encontro na troca. Cada ínfimo detalhe parecia apontar para o contrário de tudo que pensara sobre si e nesse instante, como por mágica, a Porta se abriu.
20/10/2007
ciclo
serviu-se do vinho
sentiu-lhe o rosto
deu-lhe uma das faces
retirou-se em repouso
retornou exposto
mostrou-se outro
propôs impace
voltou sozinho
09/10/2007
08/10/2007
Todo dia

Nunca renegue a melodia
Mesmo quando o dia
dela se esquece
Noite a noite
Sente em frente
Noite a noite
Sente em frente
olhe no olho
Não se apresse
Não finja gozo
Não forje um gosto
na pressa para que
Não se apresse
Não finja gozo
Não forje um gosto
na pressa para que
o coração se aqueça
Respeite contornos
Descubra atalhos
Poupe latim
Canalize saliva
se o ato te pede
suspiro e carícias
Cative espaços
Avance sinais
Conheça seu lastro
Aporte noutro cais
Respeite contornos
Descubra atalhos
Poupe latim
Canalize saliva
se o ato te pede
suspiro e carícias
Cative espaços
Avance sinais
Conheça seu lastro
Aporte noutro cais
07/10/2007
30/09/2007
Extra!
Chico Buarque dispensa apresentação, certo? Errado! Há anos ouço suas músicas e quando alguém me pergunta: "conhece aquela?" é comum eu já responder cantando, do tipo: "claro que conheço!" No entanto, essa semana ouvi "Terezinha" como nunca antes. Sou encantada pelo modo que ele descreve três impactos diferentes de enamoramento na canção. A melodia me remete inevitavelmente à infância, momentos dos primeiros amorores e rancores de minha vida. Então, acreditava conhecer a música Terezinha de trás pra frente, mas.... a vida é mesmo uma caixinha de surpresas...
Enquanto desempenhava meu lado "jarbas" no volante, o Chico cantava no carro. De repente, entrou a faixa "Terezinha" do cd e qual não foi minha surpresa ao me flagrar prestando mais atenção à melodia e entrada dos instrumentos musicais. Impressionante!! O "primeiro" chega à "Terezinha" ao som de violão apenas; ao entrar "o segundo" parceiro da Terezinha, o violão de antes passa a ser acompanhado por um piano; mas é somente no "terceiro" que o sopro de vida da flauta se junta aos outros dois intrumentos para finalizar a contento o enredo. Fiquei passada com a nova "Terezinha" que ouvia no velho cd. Sem esforço nem concentração mas simplesmente o surgimento do novo no velho...
24/09/2007
lunático
Mr.Moon era um homem enigmático. Vezes agregava gente. Cultivadas, nem sempre as mantinha. Não era de fácil abordagem. Na fala anunciava abruptamente recônditos semelhantes ao quarto escuro do Barba-Azul. Nichos fecundos. Guardado em si... Era de várias facetas: ora pleno, brilhante, marcante... ora surpreendente, novo, criativo... Noutras expansivo, emitindo flashs para todas as direções...Também resguardado, minguado, de difícil acesso...Era isso! Mr. Moon era um lunático! E como tal seu humor oscilava e se manifestava conforme as irradiações de seu satélite natal. Porém o que poucos sabiam, é que ainda assim, era ele a chama clara que iluminava e norteava o caminho dos errantes sob o escuro manto da noite.
23/09/2007
09/09/2007
des-peço-te!
Meu querido,
Escrevo esta carta numa tentativa de me despedir de você, mais uma vez... estamos juntos há muito tempo, você acompanhou bem de perto vários momentos diferentes na minha história... me viu crescer e sempre esteve à mão nas circunstâncias mais difíceis e nas mais felizes também.
Através de você, conheci muita gente interessante... sua simples presença abria caminhos para assuntos variados.
Nos separamos algumas vezes e sempre era "pra sempre", mas então... você voltava pra perto, como se nada quisesse, me prometendo momentos de raro prazer. E eu sempre fantasiava não depender de você.
Era ótimo ter você por perto depois das refeições... vc deixava qualquer degustação completa, mesmo quando a comida não era lá grande coisa.
Desculpe-me por não tê-lo deixado entrar no meu quarto... somente em outros quartos nossa intimidade esteve assegurada.
Mas, temos que admitir que nem tudo é eterno. Você tem me deixado sem fôlego e seu aroma não mais me seduz como antes. O gosto que vc me deixa na boca me incomoda... tua presença me impregna!
Não sou mais aquela mocinha inocente que você conquistou. A idade trouxe a maturidade e a vontade de viver por mais tempo. É chegada a hora de nos despedirmos eternamente! Cá dentro, você deixou marcas irreparáveis talvez. Não mais te procurarei e farei de conta que não te vejo, mesmo quando sentir imensamente a sua falta!!!
Adeus Free maço! Adeus Free Box!
Escrevo esta carta numa tentativa de me despedir de você, mais uma vez... estamos juntos há muito tempo, você acompanhou bem de perto vários momentos diferentes na minha história... me viu crescer e sempre esteve à mão nas circunstâncias mais difíceis e nas mais felizes também.
Através de você, conheci muita gente interessante... sua simples presença abria caminhos para assuntos variados.
Nos separamos algumas vezes e sempre era "pra sempre", mas então... você voltava pra perto, como se nada quisesse, me prometendo momentos de raro prazer. E eu sempre fantasiava não depender de você.
Era ótimo ter você por perto depois das refeições... vc deixava qualquer degustação completa, mesmo quando a comida não era lá grande coisa.
Desculpe-me por não tê-lo deixado entrar no meu quarto... somente em outros quartos nossa intimidade esteve assegurada.
Mas, temos que admitir que nem tudo é eterno. Você tem me deixado sem fôlego e seu aroma não mais me seduz como antes. O gosto que vc me deixa na boca me incomoda... tua presença me impregna!
Não sou mais aquela mocinha inocente que você conquistou. A idade trouxe a maturidade e a vontade de viver por mais tempo. É chegada a hora de nos despedirmos eternamente! Cá dentro, você deixou marcas irreparáveis talvez. Não mais te procurarei e farei de conta que não te vejo, mesmo quando sentir imensamente a sua falta!!!
Adeus Free maço! Adeus Free Box!
06/09/2007
frestas do Poeta
"O que quer uma mulher?"
É uma das perguntas que Freud se fez, que Lacan se debruçou, que Serge André dissecou, mas foi Chico Buarque quem descreveu o mais genuíno impacto dessa indagação na subjetividade de um menino.
"Você, você - Uma canção edipiana" (Guinga / Chico Buarque)
Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?
Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?
Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?
Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você quando não dorme
Quem é que você chama?
Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça?
E à noite pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga,
que horas, me diga
Que horas você volta?
É uma das perguntas que Freud se fez, que Lacan se debruçou, que Serge André dissecou, mas foi Chico Buarque quem descreveu o mais genuíno impacto dessa indagação na subjetividade de um menino.
"Você, você - Uma canção edipiana" (Guinga / Chico Buarque)
Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?
Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?
Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?
Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você quando não dorme
Quem é que você chama?
Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça?
E à noite pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga,
que horas, me diga
Que horas você volta?
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