30/09/2007
Extra!
Chico Buarque dispensa apresentação, certo? Errado! Há anos ouço suas músicas e quando alguém me pergunta: "conhece aquela?" é comum eu já responder cantando, do tipo: "claro que conheço!" No entanto, essa semana ouvi "Terezinha" como nunca antes. Sou encantada pelo modo que ele descreve três impactos diferentes de enamoramento na canção. A melodia me remete inevitavelmente à infância, momentos dos primeiros amorores e rancores de minha vida. Então, acreditava conhecer a música Terezinha de trás pra frente, mas.... a vida é mesmo uma caixinha de surpresas...
Enquanto desempenhava meu lado "jarbas" no volante, o Chico cantava no carro. De repente, entrou a faixa "Terezinha" do cd e qual não foi minha surpresa ao me flagrar prestando mais atenção à melodia e entrada dos instrumentos musicais. Impressionante!! O "primeiro" chega à "Terezinha" ao som de violão apenas; ao entrar "o segundo" parceiro da Terezinha, o violão de antes passa a ser acompanhado por um piano; mas é somente no "terceiro" que o sopro de vida da flauta se junta aos outros dois intrumentos para finalizar a contento o enredo. Fiquei passada com a nova "Terezinha" que ouvia no velho cd. Sem esforço nem concentração mas simplesmente o surgimento do novo no velho...
24/09/2007
lunático
Mr.Moon era um homem enigmático. Vezes agregava gente. Cultivadas, nem sempre as mantinha. Não era de fácil abordagem. Na fala anunciava abruptamente recônditos semelhantes ao quarto escuro do Barba-Azul. Nichos fecundos. Guardado em si... Era de várias facetas: ora pleno, brilhante, marcante... ora surpreendente, novo, criativo... Noutras expansivo, emitindo flashs para todas as direções...Também resguardado, minguado, de difícil acesso...Era isso! Mr. Moon era um lunático! E como tal seu humor oscilava e se manifestava conforme as irradiações de seu satélite natal. Porém o que poucos sabiam, é que ainda assim, era ele a chama clara que iluminava e norteava o caminho dos errantes sob o escuro manto da noite.
23/09/2007
09/09/2007
des-peço-te!
Meu querido,
Escrevo esta carta numa tentativa de me despedir de você, mais uma vez... estamos juntos há muito tempo, você acompanhou bem de perto vários momentos diferentes na minha história... me viu crescer e sempre esteve à mão nas circunstâncias mais difíceis e nas mais felizes também.
Através de você, conheci muita gente interessante... sua simples presença abria caminhos para assuntos variados.
Nos separamos algumas vezes e sempre era "pra sempre", mas então... você voltava pra perto, como se nada quisesse, me prometendo momentos de raro prazer. E eu sempre fantasiava não depender de você.
Era ótimo ter você por perto depois das refeições... vc deixava qualquer degustação completa, mesmo quando a comida não era lá grande coisa.
Desculpe-me por não tê-lo deixado entrar no meu quarto... somente em outros quartos nossa intimidade esteve assegurada.
Mas, temos que admitir que nem tudo é eterno. Você tem me deixado sem fôlego e seu aroma não mais me seduz como antes. O gosto que vc me deixa na boca me incomoda... tua presença me impregna!
Não sou mais aquela mocinha inocente que você conquistou. A idade trouxe a maturidade e a vontade de viver por mais tempo. É chegada a hora de nos despedirmos eternamente! Cá dentro, você deixou marcas irreparáveis talvez. Não mais te procurarei e farei de conta que não te vejo, mesmo quando sentir imensamente a sua falta!!!
Adeus Free maço! Adeus Free Box!
Escrevo esta carta numa tentativa de me despedir de você, mais uma vez... estamos juntos há muito tempo, você acompanhou bem de perto vários momentos diferentes na minha história... me viu crescer e sempre esteve à mão nas circunstâncias mais difíceis e nas mais felizes também.
Através de você, conheci muita gente interessante... sua simples presença abria caminhos para assuntos variados.
Nos separamos algumas vezes e sempre era "pra sempre", mas então... você voltava pra perto, como se nada quisesse, me prometendo momentos de raro prazer. E eu sempre fantasiava não depender de você.
Era ótimo ter você por perto depois das refeições... vc deixava qualquer degustação completa, mesmo quando a comida não era lá grande coisa.
Desculpe-me por não tê-lo deixado entrar no meu quarto... somente em outros quartos nossa intimidade esteve assegurada.
Mas, temos que admitir que nem tudo é eterno. Você tem me deixado sem fôlego e seu aroma não mais me seduz como antes. O gosto que vc me deixa na boca me incomoda... tua presença me impregna!
Não sou mais aquela mocinha inocente que você conquistou. A idade trouxe a maturidade e a vontade de viver por mais tempo. É chegada a hora de nos despedirmos eternamente! Cá dentro, você deixou marcas irreparáveis talvez. Não mais te procurarei e farei de conta que não te vejo, mesmo quando sentir imensamente a sua falta!!!
Adeus Free maço! Adeus Free Box!
06/09/2007
frestas do Poeta
"O que quer uma mulher?"
É uma das perguntas que Freud se fez, que Lacan se debruçou, que Serge André dissecou, mas foi Chico Buarque quem descreveu o mais genuíno impacto dessa indagação na subjetividade de um menino.
"Você, você - Uma canção edipiana" (Guinga / Chico Buarque)
Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?
Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?
Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?
Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você quando não dorme
Quem é que você chama?
Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça?
E à noite pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga,
que horas, me diga
Que horas você volta?
É uma das perguntas que Freud se fez, que Lacan se debruçou, que Serge André dissecou, mas foi Chico Buarque quem descreveu o mais genuíno impacto dessa indagação na subjetividade de um menino.
"Você, você - Uma canção edipiana" (Guinga / Chico Buarque)
Que roupa você veste, que anéis?
Por quem você se troca?
Que bicho feroz são seus cabelos
Que à noite você solta?
De que é que você brinca?
Que horas você volta?
Seu beijo nos meus olhos, seus pés
Que o chão sequer não tocam
A seda a roçar no quarto escuro
E a réstia sob a porta
Onde é que você some?
Que horas você volta?
Quem é essa voz?
Que assombração
Seu corpo carrega?
Terá um capuz?
Será o ladrão?
Que horas você chega?
Me sopre novamente as canções
Com que você me engana
Que blusa você, com o seu cheiro
Deixou na minha cama?
Você quando não dorme
Quem é que você chama?
Pra quem você tem olhos azuis
E com as manhãs remoça?
E à noite pra quem
Você é uma luz
Debaixo da porta?
No sonho de quem
Você vai e vem
Com os cabelos
Que você solta?
Que horas, me diga,
que horas, me diga
Que horas você volta?
28/08/2007
festa dos bichos

Pardais em alvoroço, coelhos aos pulos, cavalos em trote, dançavam ao som da cigarra cantante.
Um gato dengoso, de cima da árvore, sussurrava à girafa, que entortava o pescoço, secretas histórias:
havia um cachorro, nascido Pastor alemão que vivia alegre atrás do próprio rabo. Por tanto tempo rodou que, ao parar, notou que perdera a direção. Como se não bastasse, tonto que ficou de tanto girar, confuso se viu sobre quem seria. Não suportou o vazio de sua condição, olhou para o Sol e identificou-se com sua grandeza. "Sou o Sol" pensou ele. Saiu pela floresta, acreditando o astro ser e topou com um leão. Observou seus gestos, notou sua soberania no reino animal e proclamou: "Sou um leão". O leão que avistara o pastor há algum tempo, cercou sua presa e o abocanhou.
Desfecho sem moral: Pastor, que se pensa Sol e imita Leão, mais cedo ou mais tarde vira refeição.
Um gato dengoso, de cima da árvore, sussurrava à girafa, que entortava o pescoço, secretas histórias:
havia um cachorro, nascido Pastor alemão que vivia alegre atrás do próprio rabo. Por tanto tempo rodou que, ao parar, notou que perdera a direção. Como se não bastasse, tonto que ficou de tanto girar, confuso se viu sobre quem seria. Não suportou o vazio de sua condição, olhou para o Sol e identificou-se com sua grandeza. "Sou o Sol" pensou ele. Saiu pela floresta, acreditando o astro ser e topou com um leão. Observou seus gestos, notou sua soberania no reino animal e proclamou: "Sou um leão". O leão que avistara o pastor há algum tempo, cercou sua presa e o abocanhou.
Desfecho sem moral: Pastor, que se pensa Sol e imita Leão, mais cedo ou mais tarde vira refeição.
24/08/2007
Cervantes num Repente

Lá vai Quixote
carregando sua mente
dentro de um caixote
que o Real desmente.
Dulcinéia ele convida
pra que dancem um xote,
frente ao aceite com vida
responde com enxote.
Se Sancho ali estivesse
sutilmente o aconselharia
tal qual uma prece:
"Cuide bem dessa guria
antes que a trama se disperse
e mergulhe na alegria
que tua jornada desconhece"
Quixote, cansado do presente,
ilusionista do futuro,
ex-guerreiro doente,
um fidalgo maduro,
se colocaria ausente,
num refúgio no escuro,
pra responder ao ente
que o colocou contra o muro.
Responderia a Sancho, então,
o provocador mote:
"Vivo o tempo em expansão
e sei o avesso do meu caixote.
Você pode me ver sem razão,
embora de você eu discorde.
Cá em cima do meu alazão,
de onde avisto o Norte,
sei que acima de toda razão
existe algo que supera a morte
que é a coisa chamada Paixão.
Ela despoja o ser da sorte
de ter suas armas em mãos,
sob a promessa sem corte
que preserve o coração.
A realidade, Sancho, pode
indicar que a situação
exige suspender o galope
e "cair do cavalo"
carregando sua mente
dentro de um caixote
que o Real desmente.
Dulcinéia ele convida
pra que dancem um xote,
frente ao aceite com vida
responde com enxote.
Se Sancho ali estivesse
sutilmente o aconselharia
tal qual uma prece:
"Cuide bem dessa guria
antes que a trama se disperse
e mergulhe na alegria
que tua jornada desconhece"
Quixote, cansado do presente,
ilusionista do futuro,
ex-guerreiro doente,
um fidalgo maduro,
se colocaria ausente,
num refúgio no escuro,
pra responder ao ente
que o colocou contra o muro.
Responderia a Sancho, então,
o provocador mote:
"Vivo o tempo em expansão
e sei o avesso do meu caixote.
Você pode me ver sem razão,
embora de você eu discorde.
Cá em cima do meu alazão,
de onde avisto o Norte,
sei que acima de toda razão
existe algo que supera a morte
que é a coisa chamada Paixão.
Ela despoja o ser da sorte
de ter suas armas em mãos,
sob a promessa sem corte
que preserve o coração.
A realidade, Sancho, pode
indicar que a situação
exige suspender o galope
e "cair do cavalo"
pra manter minha ilusão."
20/08/2007
16/08/2007
Passada a tempestade ansiosa, seu estado poderia ser descrito como um leve alívio, misturado com um tanto de melancolia. Respostas surgiam à perguntas que não haviam sido formuladas, sem que se notasse com clareza a ordem das idéias.
Sabia de uma coisa: não queria compactuar com uma situação ambígua...
É como se o bonito sapato de salto mais alto, bico mais fino, fosse utilizado como sinônimo de conforto. Não é. É bonito inclusive para um contexto específico pois ir à praia de salto lhe soava como coisa caricata e desnecessária por completo.
Assim, apesar do guarda roupa solicitar um sapato de acordo, reparou que estava mesmo era a fim de colocar, no máximo, um chinelo (para o momento de solo mais duro, ou mais quente, ou por demais frio), mas no geral, preferia mesmo era andar descalça. Já era hora de descanso, para que os devaneios aportassem segura-mente.
Sabia de uma coisa: não queria compactuar com uma situação ambígua...
É como se o bonito sapato de salto mais alto, bico mais fino, fosse utilizado como sinônimo de conforto. Não é. É bonito inclusive para um contexto específico pois ir à praia de salto lhe soava como coisa caricata e desnecessária por completo.
Assim, apesar do guarda roupa solicitar um sapato de acordo, reparou que estava mesmo era a fim de colocar, no máximo, um chinelo (para o momento de solo mais duro, ou mais quente, ou por demais frio), mas no geral, preferia mesmo era andar descalça. Já era hora de descanso, para que os devaneios aportassem segura-mente.
11/08/2007
A vida é cinema
Há situações na vida em que o enredo nelas contido, funciona como um filme mais expandido em seu tempo de duração. No cinema, entramos para assistir um filme sabendo quanto tempo deveremos dispor para acompanharmos seu desenvolvimento. Alguma amarra no enredo deve ser feita num prazo médio de duas horas. Talvez seja este um dos fatores de sucesso desse tipo de arte: uma aventura com tempo marcado pra terminar. É, portanto, um mergulho seguro quando comparado, por exemplo, às relações afetivas. Neste último campo, o tempo é mais elástico, podendo durar de segundos a infindáveis anos.
Mas, tal qual no cinema, há tramas que desde o início já sinalizam um desfecho previsível, como boa parte dos filmes americanos. Estes, revelam uma lógica facilmente apreendida, meio batida, com poucas surpresas, mas que demandam uma escolha: ao pagarmos a entrada no cinema e sentarmos na poltrona, escolhemos "acreditar"que o filme nos acrescentará algo, nos provocará emoções impensáveis. Essa é a paga: o filme deve nos proporcionar sentimentos, apesar de conhecermos seu desfecho. A ênfase da experiência recai, então, ao trajeto e não ao ponto de chegada da obra.
Citei antes que devemos "acreditar" na trama para que aconteça o efeito no caldeirão das emoções. Mas, ao longo do enredo, "esquemos" desse acordo interno prévio (esquecimento este, repito, necessário para que aconteça a mágica da ebulição afetiva) e nos vemos logo tentando opinar sobre um final mais surpreendente do filme. Risco no saldo: saímos do cinema irritados com o roteirista, com o diretor e com toda a indústria cinematográfica americana!
Mas, passada a ira, já nos é possível lembrar do acordo inicial e passamos então à possibilidade de escolher melhor os filmes que merecem o investimento do preço da entrada.
Mas, tal qual no cinema, há tramas que desde o início já sinalizam um desfecho previsível, como boa parte dos filmes americanos. Estes, revelam uma lógica facilmente apreendida, meio batida, com poucas surpresas, mas que demandam uma escolha: ao pagarmos a entrada no cinema e sentarmos na poltrona, escolhemos "acreditar"que o filme nos acrescentará algo, nos provocará emoções impensáveis. Essa é a paga: o filme deve nos proporcionar sentimentos, apesar de conhecermos seu desfecho. A ênfase da experiência recai, então, ao trajeto e não ao ponto de chegada da obra.
Citei antes que devemos "acreditar" na trama para que aconteça o efeito no caldeirão das emoções. Mas, ao longo do enredo, "esquemos" desse acordo interno prévio (esquecimento este, repito, necessário para que aconteça a mágica da ebulição afetiva) e nos vemos logo tentando opinar sobre um final mais surpreendente do filme. Risco no saldo: saímos do cinema irritados com o roteirista, com o diretor e com toda a indústria cinematográfica americana!
Mas, passada a ira, já nos é possível lembrar do acordo inicial e passamos então à possibilidade de escolher melhor os filmes que merecem o investimento do preço da entrada.
10/08/2007
O homem; as viagens
por: Carlos Drummond de Andrade
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual a Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza
Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para te ver?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual a Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza
Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para te ver?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
30/07/2007
síndrome de Gabriela
Lembra aquela música "Eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim, vou ser sempre assim: Gabriela"? Então, essa compulsão a repetição dos vínculos afetivos está retratada no filme "Medos Privados em Lugares Públicos". O filme é enfadonho! Nas últimas cenas até dei uns cochilos... Olhei ao lado e a platéia estava, no geral, amontoada nas poltronas do cinema. Foram duas horas de longa tortura presenciando a mesma trama vivida pelos personagens, que trocavam de parceria, sem alterar a forma das relações. Interlocutores pareciam roupas, que se trocam sem alterar o corpo. Alí no cinema, perdi duas horas e R$14,00 da entrada. Mas o chocolate quente, servido no café do cinema, estava ótimo!
O filme retrata, de maneira fiel, o aprisionamento psíquico dos personagens da trama, assim como a ausência de comunicação dos elementos conflitivos que surgem do contato entre os envolvidos. Não há comunicação efetiva, há esbarrões entre os personagens. Seria uma comédia da vida privada se não fosse tão triste... Termina como começou: muito discurso pra pouca fala. Como o filme não aponta nenhuma saída, depois de uma hora e tanto eu estava era com muito sono... Muito refém pra pouco crime. Mas... fidedigno.
O filme retrata, de maneira fiel, o aprisionamento psíquico dos personagens da trama, assim como a ausência de comunicação dos elementos conflitivos que surgem do contato entre os envolvidos. Não há comunicação efetiva, há esbarrões entre os personagens. Seria uma comédia da vida privada se não fosse tão triste... Termina como começou: muito discurso pra pouca fala. Como o filme não aponta nenhuma saída, depois de uma hora e tanto eu estava era com muito sono... Muito refém pra pouco crime. Mas... fidedigno.
27/07/2007
Sobre a origem da poesia
Por Arnaldo Antunes em "12 Poemas para dançarmos"
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado. Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica. Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta). No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre. Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado. Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica. Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta). No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre. Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo
23/07/2007
marcas do trágico
"A minha renuncia, enche minh'alma e o coração de tédio. A tua renuncia, dá-me um desgosto que não tem remédio. Amar é viver, é um doce prazer, embriagador e vulgar. Difícil no amor, é saber renunciar!"(Roberto Martins e Mário Rossi) Amor... palavra utilizada amplamente para tentar significar laço, vínculo. Infelizmente, tão utilizada para se referir a tantos sentimentos diferentes que até se banalizou. A importância do amor nas relações é algo recente.
Tudo começou por volta do século XII, quando os poetas cantavam o amor proibido à mulher amada. O alvo de amor do poeta era uma mulher casada, nobre, linda e totalmente fora de alcance. Os respectivos maridos não se sentiam ameaçados com as declarações públicas. O que sustentava o casamento nada tinha a ver com essa coisa chamada Amor. Isso era coisa de poeta.
Mas como tudo que é efetivo em qualquer história, a corrosão do amor, dentro da instituição família, foi acontecendo lentamente... Esse sentimento passou a ser considerado fundamental no Romantismo, lá pelo século XVIII. Mas os românticos ainda carregavam a herança do amor trágico onde o objeto de amor continuava sendo proibido, sendo este o elemento de base nas construções poéticas. O amor tinha que ser intenso, violento e trágico.
Apesar de sermos filhotes do Romantismo, vivemos num período Pós Moderno e temos demandas diferenciadas do século XVIII. Tanto o homem quanto a mulher precisam caminhar com as próprias pernas... A dama já não deve ficar esperando no alto da torre seu caveleiro dourado. Já não é possível sustentar o equivalente trágico do romantismo. Chega o tempo do amor a ser construído em sua possibilidade de existência. A mulher não é proibida porque existe o divórcio. Aparentemente o mundo ficou mais simples, descrito assim. No entanto, a herança do trágico permeia a construção subjetiva dos amantes onde o sacrifício continua tendo um lugar dentro das relações. Sacrifício e flexibilidade geralmente ainda não se diferenciam tão fácil.
O amor não é vulgar, ele traz vivências efêmeras com uma possibilidade de registro sublime, dentro de uma construção permanente. Em poucas palavras, Calligaris descreveu o amor entre homem e mulher na expressão "é quase impossível ficar sem você", muito diferente do apego que poderia ser formulado como "preciso Ter você". A ausência do objeto amado gera uma dor muito específica no amante.
Então, sem pretenção de dissecar o trecho poético descrito acima, nessa versão parece que o amor deve conter renúncia, sendo esta sinônimo de "tédio e desgosto". Que amor tedioso e desgostoso é esse? Será que é amor? Essa descrição mais se assemelha à falta de amor que com a presença dele. Sob o risco de distorção da poesia, peço perdão aos poetas... mas os tempos mudaram
Tudo começou por volta do século XII, quando os poetas cantavam o amor proibido à mulher amada. O alvo de amor do poeta era uma mulher casada, nobre, linda e totalmente fora de alcance. Os respectivos maridos não se sentiam ameaçados com as declarações públicas. O que sustentava o casamento nada tinha a ver com essa coisa chamada Amor. Isso era coisa de poeta.
Mas como tudo que é efetivo em qualquer história, a corrosão do amor, dentro da instituição família, foi acontecendo lentamente... Esse sentimento passou a ser considerado fundamental no Romantismo, lá pelo século XVIII. Mas os românticos ainda carregavam a herança do amor trágico onde o objeto de amor continuava sendo proibido, sendo este o elemento de base nas construções poéticas. O amor tinha que ser intenso, violento e trágico.
Apesar de sermos filhotes do Romantismo, vivemos num período Pós Moderno e temos demandas diferenciadas do século XVIII. Tanto o homem quanto a mulher precisam caminhar com as próprias pernas... A dama já não deve ficar esperando no alto da torre seu caveleiro dourado. Já não é possível sustentar o equivalente trágico do romantismo. Chega o tempo do amor a ser construído em sua possibilidade de existência. A mulher não é proibida porque existe o divórcio. Aparentemente o mundo ficou mais simples, descrito assim. No entanto, a herança do trágico permeia a construção subjetiva dos amantes onde o sacrifício continua tendo um lugar dentro das relações. Sacrifício e flexibilidade geralmente ainda não se diferenciam tão fácil.
O amor não é vulgar, ele traz vivências efêmeras com uma possibilidade de registro sublime, dentro de uma construção permanente. Em poucas palavras, Calligaris descreveu o amor entre homem e mulher na expressão "é quase impossível ficar sem você", muito diferente do apego que poderia ser formulado como "preciso Ter você". A ausência do objeto amado gera uma dor muito específica no amante.
Então, sem pretenção de dissecar o trecho poético descrito acima, nessa versão parece que o amor deve conter renúncia, sendo esta sinônimo de "tédio e desgosto". Que amor tedioso e desgostoso é esse? Será que é amor? Essa descrição mais se assemelha à falta de amor que com a presença dele. Sob o risco de distorção da poesia, peço perdão aos poetas... mas os tempos mudaram
efeito Elsa & Fred

Assisti o filme Elsa & Fred há alguns dias. Hesitei várias vezes antes de me decidir por pegar esse filme na locadora, aparentemente se tratava de mais uma comédia "água com açucar". Ledo engano. Conta a história de uma senhorinha muito simpática que leva às últimas consequências a idéia de vida, sapiente de sua condição de morte próxima. Elsa conhece Fred, um viúvo que se muda para o apartamento em frente ao seu. Fred está deprimido pela perda da esposa há poucos meses.
Elsa propõe lentamente que se conheçam e logo começa sugerir aventuras que possam vivenciar juntos.
Fred a chama de louca e, apesar de sinalizar toda a dificuldade em sair do estilo de vida cultivado como certo e saudável, começa a se permitir viver situações inusitadas em sua vida até então "certa demais"... um tanto monótona e desprovida de sentido fora da sensação de "dever cumprido".
Inevitavelmente pensei na maioria das relações conjugais que conheço. Relações "seguras", de continuidade garantida sob a certeza de permanência do outro, "por e apesar" de qualquer eventualidade. Relações "certas", "direitas", postas. Nenhum dos envolvidos precisa se esforçar por fazer acontecer nada de diferente ou por comunicar regularmente no quê o outro lhe é instigante, curioso.... É terrível quando num casal se estabelece a sensação de esgotamento, explícita na frase: "como te conheço bem!". Que ilusão! Infelizmente este fenômeno recorrente expressa água parada... e a vigilância sanitária alerta: água parada gera bicho!
Mas o fenômeno Elsa & Fred se refere ao oposto desse malogro. Sugere a necessidade humana da invenção, da criação, da necessidade de cavarmos espaços nas nossas relações para que possa surgir o inusitado, o que não imaginamos possível sermos.
Saber dessa necessidade implica na responsabilidade de se implicar nessa rota ou se decidir por ignorá-la. Nesse sentido, a indústria farmacêutica pode ser últil com seus inúmeros placebos que aplacam a dor por ter vislumbrado outra forma de vida.
Elsa propõe lentamente que se conheçam e logo começa sugerir aventuras que possam vivenciar juntos.
Fred a chama de louca e, apesar de sinalizar toda a dificuldade em sair do estilo de vida cultivado como certo e saudável, começa a se permitir viver situações inusitadas em sua vida até então "certa demais"... um tanto monótona e desprovida de sentido fora da sensação de "dever cumprido".
Inevitavelmente pensei na maioria das relações conjugais que conheço. Relações "seguras", de continuidade garantida sob a certeza de permanência do outro, "por e apesar" de qualquer eventualidade. Relações "certas", "direitas", postas. Nenhum dos envolvidos precisa se esforçar por fazer acontecer nada de diferente ou por comunicar regularmente no quê o outro lhe é instigante, curioso.... É terrível quando num casal se estabelece a sensação de esgotamento, explícita na frase: "como te conheço bem!". Que ilusão! Infelizmente este fenômeno recorrente expressa água parada... e a vigilância sanitária alerta: água parada gera bicho!
Mas o fenômeno Elsa & Fred se refere ao oposto desse malogro. Sugere a necessidade humana da invenção, da criação, da necessidade de cavarmos espaços nas nossas relações para que possa surgir o inusitado, o que não imaginamos possível sermos.
Saber dessa necessidade implica na responsabilidade de se implicar nessa rota ou se decidir por ignorá-la. Nesse sentido, a indústria farmacêutica pode ser últil com seus inúmeros placebos que aplacam a dor por ter vislumbrado outra forma de vida.
15/07/2007
Sedução
por: Flora Figueiredo
A vida mostrou seu decote profundo
na esperança vã de seduzir o mundo.
Passou despercebida.
Por mais que ela insista,
não se lhe oferece chance de conquista.
Mas vale a tentativa:
Só quando a vida ousa, permanece viva.
A vida mostrou seu decote profundo
na esperança vã de seduzir o mundo.
Passou despercebida.
Por mais que ela insista,
não se lhe oferece chance de conquista.
Mas vale a tentativa:
Só quando a vida ousa, permanece viva.
13/07/2007
poema a 4 mãos
Difícil de dizer
pois a lingua falha
as vezes cala
em meio a outras malhas
talvez de lençois e travesseiros
por entre colchas e retalhos
os encontros se fazem
de atropelos
mas entre os zelos da malha
aquela que aquece, por fim
Há a grande palavra CORPO
(por Adri Machado)
Se a boca fala
e a língua cala,
nos retalhos da malha
um zelo não se entalha.
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
(Por Elaine)
pois a lingua falha
as vezes cala
em meio a outras malhas
talvez de lençois e travesseiros
por entre colchas e retalhos
os encontros se fazem
de atropelos
mas entre os zelos da malha
aquela que aquece, por fim
Há a grande palavra CORPO
(por Adri Machado)
Se a boca fala
e a língua cala,
nos retalhos da malha
um zelo não se entalha.
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
(Por Elaine)
08/07/2007
menu
Seu jeito de gostar. Um modo de sugerir algo que desperta o paladar, um cheiro. Coisa de cinema. E eu que nem gosto de filme americano onde tudo é explícito, explicável e corroborável. Mas sua forma confunde, tal filme iraniano. E eu no explícito gostar italiano. Seu idioma sutil de palavras com saídas à francesa, retira o refúgio no campo dos símbolos que aplacam incertezas.
"Preciso" apreender suas línguas.
"Preciso" apreender suas línguas.
27/06/2007

Não há mais gênios na atualidade porque existe a indústria farmacêutica com seus psicofármacos.
Beethoven estava surdo quando compôs a 9a. sinfonia e também considerado totalmente louco por se apresentar rústico, excêntrico, arrogante, "sem qualidade de vida". Seu mundo relacional era caótico e esse caos só encontrava escoamento na música. Era divina sua imensa sensibilidade para transformar sensações e sutis percepções em linguagem musical.
Ele dizia não ser possível ver Deus, apenas ouvi-lo através da música.
E como já cantou Raul: "E pra aquele que me provar que estou mentindo, eu tiro o meu chapéu".
São inúmeros os caminhos a R O M A.
Beethoven estava surdo quando compôs a 9a. sinfonia e também considerado totalmente louco por se apresentar rústico, excêntrico, arrogante, "sem qualidade de vida". Seu mundo relacional era caótico e esse caos só encontrava escoamento na música. Era divina sua imensa sensibilidade para transformar sensações e sutis percepções em linguagem musical.
Ele dizia não ser possível ver Deus, apenas ouvi-lo através da música.
E como já cantou Raul: "E pra aquele que me provar que estou mentindo, eu tiro o meu chapéu".
São inúmeros os caminhos a R O M A.
25/06/2007
Em tempo
Li uma notícia de que cinco jovens teriam agredido uma empregada doméstica às cinco da manhã, num ponto de ônibus, pensando se tratar de uma "vagabunda". Foi essa a "justificativa" dos meninos que têm em média 20 anos, moram em bairros nobres do RJ e levam uma vida, aparentemente, "normal".
A notícia deixa a sugestão que os "bad boys" teriam saído de uma rave e talvez estivessem alcoolizados o suficiente para que não possam responder responsavelmente pelo ocorrido. Ora, a bebida alccolica não cria nada, ela pode apenas rebaixar a crítica ou o auto-controle para que o que está latente encontre saída. Portanto o alcool nada cria de novo no psiquismo, somente "procria" o que fica guardado em compartimentos secretos. [A mesma construção de raciocínio poderia ser usada para pensarmos a TPM, apesar de se tratar de outro tipo de fenômeno, mas isso é papo pra outro post...]
É importante encontrarmos um lugar de pertencimento, de acolhida, de companheirismo e cumplicidade, tal qual esses jovens encontraram em seu meio. É bom termos amigos passionais... mas a cumplicidade do grupo em questão se revelou frágil ao serem confrontados com o resultado de seus atos. O primeiro moço encontrado pela polícia já delatou todos os outros. Abrem-se perguntas: Pra que "serve" um amigo? Até que ponto um amigo pode ser visto como cúmplice de algo que alguém decide fazer?
A construção de posicionamento responsável diante do outro, traduz-se num processo pra uma vida inteira. Esses jovens parecem estar há anos luz de distinguirem um outro que não seja a própria fantasia que se interpõe inevitavelmente ao se "ler" uma outra pessoa. O ocorrido com a moça no ponto de ônibus, delata uma fantasia da divisão clássica entre a "mulher santa e a puta", uma divisão que começa na infância do psiquismo masculino, que se preserva em imagens totais, e as vezes não encontra um desfecho favorável pro resto da vida.
Parece que os meninos justificaram o ato como: "desculpa aí, pensei que fosse uma vagabunda, não sabia se tratar de uma mulher que estava no ponto de ônibus pra ir no médico, porque, se fosse a prostituta, tudo se esclareceria, não?" Pra mim isso ainda choca! E sempre chocará porque não se trata de algo que se deve "acostumar", ainda que vigore dentro da "norma", do que há de comum na cultura vigente.
Será que alguma das gerações futuras poderá lidar melhor com essa cisão no afeto? Paralelamente existe uma quantidade significativa de mulher que veste um desses personagens na vida pública (e privada), reforçando essa fantasia purista da "santa" ou da "puta". Ninguém É santa ou puta, bandido ou herói, mas há quem se descreva e se posicione dentro de alguma dessas categorias maniqueístas, pra tentar se fazer reconhecer e respeitar, amar, pelo outro.
O imbróglio está posto: a camisa-de-força da famigerada "normalidade" privilegia certas ações (ou ações certas), esconde motivações e vela intensões que se constroem dentro das famílias, primeira célula social. É evidente que não funciona o "termômetro de sucesso" do ocidente que se norteia pelo êxito profissional e financeiro, entre posses, poses e rendas. Tudo que é visto como normal é apenas um constructo cultural em que a maioria está de acordo. É só isso. Antes desse ato bárbaro praticado por esses jovens, eles eram moços portadores de preconceitos (conceitos previamente engolidos e não mastigados) existentes em seus frágeis psiquismos "normais".
Mas creio num tempo futuro, no qual a honestidade possa, acima da verdade, vigorar nas relações a fim de lidarmos com o que produzimos, seja lá o que for, como disse Renato Russo: "não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a gente".
A notícia deixa a sugestão que os "bad boys" teriam saído de uma rave e talvez estivessem alcoolizados o suficiente para que não possam responder responsavelmente pelo ocorrido. Ora, a bebida alccolica não cria nada, ela pode apenas rebaixar a crítica ou o auto-controle para que o que está latente encontre saída. Portanto o alcool nada cria de novo no psiquismo, somente "procria" o que fica guardado em compartimentos secretos. [A mesma construção de raciocínio poderia ser usada para pensarmos a TPM, apesar de se tratar de outro tipo de fenômeno, mas isso é papo pra outro post...]
É importante encontrarmos um lugar de pertencimento, de acolhida, de companheirismo e cumplicidade, tal qual esses jovens encontraram em seu meio. É bom termos amigos passionais... mas a cumplicidade do grupo em questão se revelou frágil ao serem confrontados com o resultado de seus atos. O primeiro moço encontrado pela polícia já delatou todos os outros. Abrem-se perguntas: Pra que "serve" um amigo? Até que ponto um amigo pode ser visto como cúmplice de algo que alguém decide fazer?
A construção de posicionamento responsável diante do outro, traduz-se num processo pra uma vida inteira. Esses jovens parecem estar há anos luz de distinguirem um outro que não seja a própria fantasia que se interpõe inevitavelmente ao se "ler" uma outra pessoa. O ocorrido com a moça no ponto de ônibus, delata uma fantasia da divisão clássica entre a "mulher santa e a puta", uma divisão que começa na infância do psiquismo masculino, que se preserva em imagens totais, e as vezes não encontra um desfecho favorável pro resto da vida.
Parece que os meninos justificaram o ato como: "desculpa aí, pensei que fosse uma vagabunda, não sabia se tratar de uma mulher que estava no ponto de ônibus pra ir no médico, porque, se fosse a prostituta, tudo se esclareceria, não?" Pra mim isso ainda choca! E sempre chocará porque não se trata de algo que se deve "acostumar", ainda que vigore dentro da "norma", do que há de comum na cultura vigente.
Será que alguma das gerações futuras poderá lidar melhor com essa cisão no afeto? Paralelamente existe uma quantidade significativa de mulher que veste um desses personagens na vida pública (e privada), reforçando essa fantasia purista da "santa" ou da "puta". Ninguém É santa ou puta, bandido ou herói, mas há quem se descreva e se posicione dentro de alguma dessas categorias maniqueístas, pra tentar se fazer reconhecer e respeitar, amar, pelo outro.
O imbróglio está posto: a camisa-de-força da famigerada "normalidade" privilegia certas ações (ou ações certas), esconde motivações e vela intensões que se constroem dentro das famílias, primeira célula social. É evidente que não funciona o "termômetro de sucesso" do ocidente que se norteia pelo êxito profissional e financeiro, entre posses, poses e rendas. Tudo que é visto como normal é apenas um constructo cultural em que a maioria está de acordo. É só isso. Antes desse ato bárbaro praticado por esses jovens, eles eram moços portadores de preconceitos (conceitos previamente engolidos e não mastigados) existentes em seus frágeis psiquismos "normais".
Mas creio num tempo futuro, no qual a honestidade possa, acima da verdade, vigorar nas relações a fim de lidarmos com o que produzimos, seja lá o que for, como disse Renato Russo: "não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a gente".
24/06/2007
do meu gosto
gosto de gente que tem gosto de gente
gente que tem gosto também traz desgosto
mas deixa um gosto de rosto que ninguém tem.
16/06/2007
Tributo ao Aparelho de Poesia
Pra quem não sabe, o Aparelho de Poesia é um evento que acontece todo mês no Caleidos Arte & Ensino. O Fábio elege um tema e sai fazendo uma pesquisa ampla que termina em leituras singulares compartilhadas. O poema abaixo estava inscrito no último evento... A propósito, o último Aparelho teve como tema "Sexy, Erótico e Pornô". Por ser um tema ousado, embora muito "usado", a presença foi baixa... Passados muitos anos desde o desvelamento dos segredos da sexualidade humana por Freud, parece que o tema ainda é tabu... infelizmente.
TESES
(de Paulo Leminsky)
eu
isóceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pisas
pode ser meu coração
TESES
(de Paulo Leminsky)
eu
isóceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pisas
pode ser meu coração
15/06/2007
Mário Quintana
"sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas"
ser ia
Seria a fala algo palpável?
Seria se o corpo for inflamável
Seria o amor algo rentável?
Sério não sei se seria
Seria se o corpo for inflamável
Seria o amor algo rentável?
Sério não sei se seria
11/06/2007
vazamento
Há algum tempo ouviam aquele barulho vindo do banheiro, um gotejar incessante, daqueles barulhos que, se não se toma cuidado, acaba acostumando os ouvidos. Era só pintar um silêncio mais prolongado que o barulho entrava em evidência.
Outro indicador era a conta da água, cada mês mais alta. Vazamentos não cuidados geram custos desnecessários e permanentes.
Ele tomou a iniciativa para abordar a questão:
_ Tá ouvindo?
_ Tá ouvindo o quê?
_ Esse gotejar que não pára! Barulho irritante!
_ Não tô ouvindo nada...
Ela sustentava a fantasia de que, enquanto não admitisse o barulho frente a ele, pudessem fazer de conta que o mesmo não existia. E estava funcionando bem! Colocavam música, ligavam a TV, permaneciam horas frente ao computador sem que as teclas deixassem de serem apertadas, falavam ao telefone, enfim ia tudo “muito bem”, até ele tocar naquele assunto.
_ Vou chamar um encanador – insistiu ele.
Ela se fingia de morta. Ele acreditava que ela estivesse mesmo, morta.
_ Já sei – disse ele - é só sairmos várias vezes de casa e nunca mais teremos tempo de ouvir o tal barulho.
E assim fizeram. Até começarem a ouvir o gotejar no cinema, no teatro, no barzinho...
Outro indicador era a conta da água, cada mês mais alta. Vazamentos não cuidados geram custos desnecessários e permanentes.
Ele tomou a iniciativa para abordar a questão:
_ Tá ouvindo?
_ Tá ouvindo o quê?
_ Esse gotejar que não pára! Barulho irritante!
_ Não tô ouvindo nada...
Ela sustentava a fantasia de que, enquanto não admitisse o barulho frente a ele, pudessem fazer de conta que o mesmo não existia. E estava funcionando bem! Colocavam música, ligavam a TV, permaneciam horas frente ao computador sem que as teclas deixassem de serem apertadas, falavam ao telefone, enfim ia tudo “muito bem”, até ele tocar naquele assunto.
_ Vou chamar um encanador – insistiu ele.
Ela se fingia de morta. Ele acreditava que ela estivesse mesmo, morta.
_ Já sei – disse ele - é só sairmos várias vezes de casa e nunca mais teremos tempo de ouvir o tal barulho.
E assim fizeram. Até começarem a ouvir o gotejar no cinema, no teatro, no barzinho...
tu
Sinto tremores. Olhos fixos. Os meus nos seus. Meu campo visual se restringe. Confusão. Entorno barulho. Tambores estouram. Dentro. Não sustento o olhar. Desvio. Você me procura. Você me convida quando sorri. Eu fico. E me deixo. Você me leva sem sairmos do lugar. Não quero saber onde. Soam sirenes, você está em todos os seus pedaços. Despedaço. Palavras não dão conta. Insistimos. Fala. Falo. Bebo. Bebe. Corpos misturados. Não queremos que acabe. Não sabemos continuar. Despeço. Vou dormir. Seu olhar me dorme na vigília.
tez
Tecido o amor
Em teia do humor
Ateia a tez
Humor só com amor
Amor só com humor
O humor e o amor
Deram-se as mãos
Pegam-se em mãos
Brincam e brigam
Reconstroem a ilusão.
Em teia do humor
Ateia a tez
Humor só com amor
Amor só com humor
O humor e o amor
Deram-se as mãos
Pegam-se em mãos
Brincam e brigam
Reconstroem a ilusão.
Os Incríveis e a Psicanálise
Li o texto da Maria Helena Fernandes sobre as complicações da mulher moderna na tentativa dos ajustes dos ideais na administração da vida, entitulado "A Mulher- Elástico". Penso que, além dos ideais enaltecidos pela cultura ocidental, tal qual o ideal de corpo magro citado, cada fragmento da cultura – grupos de pertencimento - privilegia alguns aspectos de manifestação ideal. Inevitavelmente assistimos ao filme no final de semana com as crianças e o evento se torna um meio propício pra discussões infindáveis, tal como Maria Helena citou. Sem cair no ridículo do maçante, pra não “matar a obra”, a linguagem dos filmes da Pixar parece evocar estímulos em níveis variados para a conversa em casa.
No filme Os Incríveis, são retratadas as várias crises que podem coabitar uma mesma constelação familiar. Cada um dos personagens foi descrito em sua peculiaridade psíquica e inter-relacional. É interessante observar como se estrutura a corrente com cada um dos elos que compõem essa cadeia familiar. A mudança de um dos membros – O Sr. Incrível – deflagra a necessidade de mudança sentida por todo o grupo. É incrível como tendemos a um estado de morbidez quando nos afastamos do que essencialmente compõe nosso desejo. As relações ficam “gastas”, o cotidiano se revela com peso e o brilho da vida fica confinado à obscuridade, como sinônimo de contravenção.
È interessante notar no filme, que a Mulher-elástico parece ser a primeira a “se adaptar” às solicitações da vida comum – e nem por isso menos importante – do trato com os filhos, da arrumação da casa, da necessidade da receita regular de quem provê o lar, da comida, do carinho, da constância. No entanto, assim que se torna explícita uma nova configuração, lá está ela antenada buscando uma interlocução que a confronte, ilustrada no filme através da intervenção da estilista “bageriana”. Faz as malas, carrega os filhos “sem perceber” a fim de lidar com a nova configuração.
Em posse do lugar elástico que a define, percebe que a autonomia da filha esteve prejudicada uma vez que a menina invisível não se encontrava em posse de suas habilidades, talvez à espera que a mãe retire a “mulher elástico” do armário, em busca de um modelo outro de identificação, que não o “puramente” materno.
É certo, como ressaltou a Maria Helena em seu texto, que a mulher moderna esteja se sentindo perdida em culpa na falta de cumprimento da rota de seus inúmeros anseios e demandas do meio. Mas talvez, por enquanto, ainda não esteja muito clara ao universo cultural masculino, a necessidade de exercitar a flexibilidade em detrimento da força ressaltada em todos os tempos. A mulher moderna deve ter força e flexibilidade, e o homem moderno?
As próximas gerações talvez nos respondam, ou talvez elaborem outras perguntas.
No filme Os Incríveis, são retratadas as várias crises que podem coabitar uma mesma constelação familiar. Cada um dos personagens foi descrito em sua peculiaridade psíquica e inter-relacional. É interessante observar como se estrutura a corrente com cada um dos elos que compõem essa cadeia familiar. A mudança de um dos membros – O Sr. Incrível – deflagra a necessidade de mudança sentida por todo o grupo. É incrível como tendemos a um estado de morbidez quando nos afastamos do que essencialmente compõe nosso desejo. As relações ficam “gastas”, o cotidiano se revela com peso e o brilho da vida fica confinado à obscuridade, como sinônimo de contravenção.
È interessante notar no filme, que a Mulher-elástico parece ser a primeira a “se adaptar” às solicitações da vida comum – e nem por isso menos importante – do trato com os filhos, da arrumação da casa, da necessidade da receita regular de quem provê o lar, da comida, do carinho, da constância. No entanto, assim que se torna explícita uma nova configuração, lá está ela antenada buscando uma interlocução que a confronte, ilustrada no filme através da intervenção da estilista “bageriana”. Faz as malas, carrega os filhos “sem perceber” a fim de lidar com a nova configuração.
Em posse do lugar elástico que a define, percebe que a autonomia da filha esteve prejudicada uma vez que a menina invisível não se encontrava em posse de suas habilidades, talvez à espera que a mãe retire a “mulher elástico” do armário, em busca de um modelo outro de identificação, que não o “puramente” materno.
É certo, como ressaltou a Maria Helena em seu texto, que a mulher moderna esteja se sentindo perdida em culpa na falta de cumprimento da rota de seus inúmeros anseios e demandas do meio. Mas talvez, por enquanto, ainda não esteja muito clara ao universo cultural masculino, a necessidade de exercitar a flexibilidade em detrimento da força ressaltada em todos os tempos. A mulher moderna deve ter força e flexibilidade, e o homem moderno?
As próximas gerações talvez nos respondam, ou talvez elaborem outras perguntas.
07/06/2007
enquanto isso, na natureza...
Não sei se assisti num filme ou li na Veja essa observação: Há uma espécie de pássaro que emite um lindo canto quando se motiva pela dança do acasalamento. A fêmea da espécie se aproxima afetada e emite algumas notas em concordância para que o encontro seja possível. A troca de canto se perpetua em simultânea aproximação física. No entanto, os especialistas observaram que, por alguma razão desconhecida, o macho estanca seus movimentos de aproximação e continua emitindo os sons concordantes, como se encantado da própria voz. A fêmea mantém o canto e o esforço na direção de encontro do macho na mata. Os pesquisadores notaram que algumas fêmeas localizam os machos da espécie e outras os perdem de vista, camuflados entre os próprios galhos.
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