Por Arnaldo Antunes em "12 Poemas para dançarmos"
A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem.Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado. Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica. Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta). No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre. Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.
Incluído no libreto do espetáculo “12 Poemas para dançarmos”, dirigido por Gisela Moreau, São Paulo
27/07/2007
23/07/2007
marcas do trágico
"A minha renuncia, enche minh'alma e o coração de tédio. A tua renuncia, dá-me um desgosto que não tem remédio. Amar é viver, é um doce prazer, embriagador e vulgar. Difícil no amor, é saber renunciar!"(Roberto Martins e Mário Rossi) Amor... palavra utilizada amplamente para tentar significar laço, vínculo. Infelizmente, tão utilizada para se referir a tantos sentimentos diferentes que até se banalizou. A importância do amor nas relações é algo recente.
Tudo começou por volta do século XII, quando os poetas cantavam o amor proibido à mulher amada. O alvo de amor do poeta era uma mulher casada, nobre, linda e totalmente fora de alcance. Os respectivos maridos não se sentiam ameaçados com as declarações públicas. O que sustentava o casamento nada tinha a ver com essa coisa chamada Amor. Isso era coisa de poeta.
Mas como tudo que é efetivo em qualquer história, a corrosão do amor, dentro da instituição família, foi acontecendo lentamente... Esse sentimento passou a ser considerado fundamental no Romantismo, lá pelo século XVIII. Mas os românticos ainda carregavam a herança do amor trágico onde o objeto de amor continuava sendo proibido, sendo este o elemento de base nas construções poéticas. O amor tinha que ser intenso, violento e trágico.
Apesar de sermos filhotes do Romantismo, vivemos num período Pós Moderno e temos demandas diferenciadas do século XVIII. Tanto o homem quanto a mulher precisam caminhar com as próprias pernas... A dama já não deve ficar esperando no alto da torre seu caveleiro dourado. Já não é possível sustentar o equivalente trágico do romantismo. Chega o tempo do amor a ser construído em sua possibilidade de existência. A mulher não é proibida porque existe o divórcio. Aparentemente o mundo ficou mais simples, descrito assim. No entanto, a herança do trágico permeia a construção subjetiva dos amantes onde o sacrifício continua tendo um lugar dentro das relações. Sacrifício e flexibilidade geralmente ainda não se diferenciam tão fácil.
O amor não é vulgar, ele traz vivências efêmeras com uma possibilidade de registro sublime, dentro de uma construção permanente. Em poucas palavras, Calligaris descreveu o amor entre homem e mulher na expressão "é quase impossível ficar sem você", muito diferente do apego que poderia ser formulado como "preciso Ter você". A ausência do objeto amado gera uma dor muito específica no amante.
Então, sem pretenção de dissecar o trecho poético descrito acima, nessa versão parece que o amor deve conter renúncia, sendo esta sinônimo de "tédio e desgosto". Que amor tedioso e desgostoso é esse? Será que é amor? Essa descrição mais se assemelha à falta de amor que com a presença dele. Sob o risco de distorção da poesia, peço perdão aos poetas... mas os tempos mudaram
Tudo começou por volta do século XII, quando os poetas cantavam o amor proibido à mulher amada. O alvo de amor do poeta era uma mulher casada, nobre, linda e totalmente fora de alcance. Os respectivos maridos não se sentiam ameaçados com as declarações públicas. O que sustentava o casamento nada tinha a ver com essa coisa chamada Amor. Isso era coisa de poeta.
Mas como tudo que é efetivo em qualquer história, a corrosão do amor, dentro da instituição família, foi acontecendo lentamente... Esse sentimento passou a ser considerado fundamental no Romantismo, lá pelo século XVIII. Mas os românticos ainda carregavam a herança do amor trágico onde o objeto de amor continuava sendo proibido, sendo este o elemento de base nas construções poéticas. O amor tinha que ser intenso, violento e trágico.
Apesar de sermos filhotes do Romantismo, vivemos num período Pós Moderno e temos demandas diferenciadas do século XVIII. Tanto o homem quanto a mulher precisam caminhar com as próprias pernas... A dama já não deve ficar esperando no alto da torre seu caveleiro dourado. Já não é possível sustentar o equivalente trágico do romantismo. Chega o tempo do amor a ser construído em sua possibilidade de existência. A mulher não é proibida porque existe o divórcio. Aparentemente o mundo ficou mais simples, descrito assim. No entanto, a herança do trágico permeia a construção subjetiva dos amantes onde o sacrifício continua tendo um lugar dentro das relações. Sacrifício e flexibilidade geralmente ainda não se diferenciam tão fácil.
O amor não é vulgar, ele traz vivências efêmeras com uma possibilidade de registro sublime, dentro de uma construção permanente. Em poucas palavras, Calligaris descreveu o amor entre homem e mulher na expressão "é quase impossível ficar sem você", muito diferente do apego que poderia ser formulado como "preciso Ter você". A ausência do objeto amado gera uma dor muito específica no amante.
Então, sem pretenção de dissecar o trecho poético descrito acima, nessa versão parece que o amor deve conter renúncia, sendo esta sinônimo de "tédio e desgosto". Que amor tedioso e desgostoso é esse? Será que é amor? Essa descrição mais se assemelha à falta de amor que com a presença dele. Sob o risco de distorção da poesia, peço perdão aos poetas... mas os tempos mudaram
efeito Elsa & Fred

Assisti o filme Elsa & Fred há alguns dias. Hesitei várias vezes antes de me decidir por pegar esse filme na locadora, aparentemente se tratava de mais uma comédia "água com açucar". Ledo engano. Conta a história de uma senhorinha muito simpática que leva às últimas consequências a idéia de vida, sapiente de sua condição de morte próxima. Elsa conhece Fred, um viúvo que se muda para o apartamento em frente ao seu. Fred está deprimido pela perda da esposa há poucos meses.
Elsa propõe lentamente que se conheçam e logo começa sugerir aventuras que possam vivenciar juntos.
Fred a chama de louca e, apesar de sinalizar toda a dificuldade em sair do estilo de vida cultivado como certo e saudável, começa a se permitir viver situações inusitadas em sua vida até então "certa demais"... um tanto monótona e desprovida de sentido fora da sensação de "dever cumprido".
Inevitavelmente pensei na maioria das relações conjugais que conheço. Relações "seguras", de continuidade garantida sob a certeza de permanência do outro, "por e apesar" de qualquer eventualidade. Relações "certas", "direitas", postas. Nenhum dos envolvidos precisa se esforçar por fazer acontecer nada de diferente ou por comunicar regularmente no quê o outro lhe é instigante, curioso.... É terrível quando num casal se estabelece a sensação de esgotamento, explícita na frase: "como te conheço bem!". Que ilusão! Infelizmente este fenômeno recorrente expressa água parada... e a vigilância sanitária alerta: água parada gera bicho!
Mas o fenômeno Elsa & Fred se refere ao oposto desse malogro. Sugere a necessidade humana da invenção, da criação, da necessidade de cavarmos espaços nas nossas relações para que possa surgir o inusitado, o que não imaginamos possível sermos.
Saber dessa necessidade implica na responsabilidade de se implicar nessa rota ou se decidir por ignorá-la. Nesse sentido, a indústria farmacêutica pode ser últil com seus inúmeros placebos que aplacam a dor por ter vislumbrado outra forma de vida.
Elsa propõe lentamente que se conheçam e logo começa sugerir aventuras que possam vivenciar juntos.
Fred a chama de louca e, apesar de sinalizar toda a dificuldade em sair do estilo de vida cultivado como certo e saudável, começa a se permitir viver situações inusitadas em sua vida até então "certa demais"... um tanto monótona e desprovida de sentido fora da sensação de "dever cumprido".
Inevitavelmente pensei na maioria das relações conjugais que conheço. Relações "seguras", de continuidade garantida sob a certeza de permanência do outro, "por e apesar" de qualquer eventualidade. Relações "certas", "direitas", postas. Nenhum dos envolvidos precisa se esforçar por fazer acontecer nada de diferente ou por comunicar regularmente no quê o outro lhe é instigante, curioso.... É terrível quando num casal se estabelece a sensação de esgotamento, explícita na frase: "como te conheço bem!". Que ilusão! Infelizmente este fenômeno recorrente expressa água parada... e a vigilância sanitária alerta: água parada gera bicho!
Mas o fenômeno Elsa & Fred se refere ao oposto desse malogro. Sugere a necessidade humana da invenção, da criação, da necessidade de cavarmos espaços nas nossas relações para que possa surgir o inusitado, o que não imaginamos possível sermos.
Saber dessa necessidade implica na responsabilidade de se implicar nessa rota ou se decidir por ignorá-la. Nesse sentido, a indústria farmacêutica pode ser últil com seus inúmeros placebos que aplacam a dor por ter vislumbrado outra forma de vida.
15/07/2007
Sedução
por: Flora Figueiredo
A vida mostrou seu decote profundo
na esperança vã de seduzir o mundo.
Passou despercebida.
Por mais que ela insista,
não se lhe oferece chance de conquista.
Mas vale a tentativa:
Só quando a vida ousa, permanece viva.
A vida mostrou seu decote profundo
na esperança vã de seduzir o mundo.
Passou despercebida.
Por mais que ela insista,
não se lhe oferece chance de conquista.
Mas vale a tentativa:
Só quando a vida ousa, permanece viva.
13/07/2007
poema a 4 mãos
Difícil de dizer
pois a lingua falha
as vezes cala
em meio a outras malhas
talvez de lençois e travesseiros
por entre colchas e retalhos
os encontros se fazem
de atropelos
mas entre os zelos da malha
aquela que aquece, por fim
Há a grande palavra CORPO
(por Adri Machado)
Se a boca fala
e a língua cala,
nos retalhos da malha
um zelo não se entalha.
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
(Por Elaine)
pois a lingua falha
as vezes cala
em meio a outras malhas
talvez de lençois e travesseiros
por entre colchas e retalhos
os encontros se fazem
de atropelos
mas entre os zelos da malha
aquela que aquece, por fim
Há a grande palavra CORPO
(por Adri Machado)
Se a boca fala
e a língua cala,
nos retalhos da malha
um zelo não se entalha.
O corpo empalha
e a alma encalha
no fio da navalha.
(Por Elaine)
08/07/2007
menu
Seu jeito de gostar. Um modo de sugerir algo que desperta o paladar, um cheiro. Coisa de cinema. E eu que nem gosto de filme americano onde tudo é explícito, explicável e corroborável. Mas sua forma confunde, tal filme iraniano. E eu no explícito gostar italiano. Seu idioma sutil de palavras com saídas à francesa, retira o refúgio no campo dos símbolos que aplacam incertezas.
"Preciso" apreender suas línguas.
"Preciso" apreender suas línguas.
27/06/2007

Não há mais gênios na atualidade porque existe a indústria farmacêutica com seus psicofármacos.
Beethoven estava surdo quando compôs a 9a. sinfonia e também considerado totalmente louco por se apresentar rústico, excêntrico, arrogante, "sem qualidade de vida". Seu mundo relacional era caótico e esse caos só encontrava escoamento na música. Era divina sua imensa sensibilidade para transformar sensações e sutis percepções em linguagem musical.
Ele dizia não ser possível ver Deus, apenas ouvi-lo através da música.
E como já cantou Raul: "E pra aquele que me provar que estou mentindo, eu tiro o meu chapéu".
São inúmeros os caminhos a R O M A.
Beethoven estava surdo quando compôs a 9a. sinfonia e também considerado totalmente louco por se apresentar rústico, excêntrico, arrogante, "sem qualidade de vida". Seu mundo relacional era caótico e esse caos só encontrava escoamento na música. Era divina sua imensa sensibilidade para transformar sensações e sutis percepções em linguagem musical.
Ele dizia não ser possível ver Deus, apenas ouvi-lo através da música.
E como já cantou Raul: "E pra aquele que me provar que estou mentindo, eu tiro o meu chapéu".
São inúmeros os caminhos a R O M A.
25/06/2007
Em tempo
Li uma notícia de que cinco jovens teriam agredido uma empregada doméstica às cinco da manhã, num ponto de ônibus, pensando se tratar de uma "vagabunda". Foi essa a "justificativa" dos meninos que têm em média 20 anos, moram em bairros nobres do RJ e levam uma vida, aparentemente, "normal".
A notícia deixa a sugestão que os "bad boys" teriam saído de uma rave e talvez estivessem alcoolizados o suficiente para que não possam responder responsavelmente pelo ocorrido. Ora, a bebida alccolica não cria nada, ela pode apenas rebaixar a crítica ou o auto-controle para que o que está latente encontre saída. Portanto o alcool nada cria de novo no psiquismo, somente "procria" o que fica guardado em compartimentos secretos. [A mesma construção de raciocínio poderia ser usada para pensarmos a TPM, apesar de se tratar de outro tipo de fenômeno, mas isso é papo pra outro post...]
É importante encontrarmos um lugar de pertencimento, de acolhida, de companheirismo e cumplicidade, tal qual esses jovens encontraram em seu meio. É bom termos amigos passionais... mas a cumplicidade do grupo em questão se revelou frágil ao serem confrontados com o resultado de seus atos. O primeiro moço encontrado pela polícia já delatou todos os outros. Abrem-se perguntas: Pra que "serve" um amigo? Até que ponto um amigo pode ser visto como cúmplice de algo que alguém decide fazer?
A construção de posicionamento responsável diante do outro, traduz-se num processo pra uma vida inteira. Esses jovens parecem estar há anos luz de distinguirem um outro que não seja a própria fantasia que se interpõe inevitavelmente ao se "ler" uma outra pessoa. O ocorrido com a moça no ponto de ônibus, delata uma fantasia da divisão clássica entre a "mulher santa e a puta", uma divisão que começa na infância do psiquismo masculino, que se preserva em imagens totais, e as vezes não encontra um desfecho favorável pro resto da vida.
Parece que os meninos justificaram o ato como: "desculpa aí, pensei que fosse uma vagabunda, não sabia se tratar de uma mulher que estava no ponto de ônibus pra ir no médico, porque, se fosse a prostituta, tudo se esclareceria, não?" Pra mim isso ainda choca! E sempre chocará porque não se trata de algo que se deve "acostumar", ainda que vigore dentro da "norma", do que há de comum na cultura vigente.
Será que alguma das gerações futuras poderá lidar melhor com essa cisão no afeto? Paralelamente existe uma quantidade significativa de mulher que veste um desses personagens na vida pública (e privada), reforçando essa fantasia purista da "santa" ou da "puta". Ninguém É santa ou puta, bandido ou herói, mas há quem se descreva e se posicione dentro de alguma dessas categorias maniqueístas, pra tentar se fazer reconhecer e respeitar, amar, pelo outro.
O imbróglio está posto: a camisa-de-força da famigerada "normalidade" privilegia certas ações (ou ações certas), esconde motivações e vela intensões que se constroem dentro das famílias, primeira célula social. É evidente que não funciona o "termômetro de sucesso" do ocidente que se norteia pelo êxito profissional e financeiro, entre posses, poses e rendas. Tudo que é visto como normal é apenas um constructo cultural em que a maioria está de acordo. É só isso. Antes desse ato bárbaro praticado por esses jovens, eles eram moços portadores de preconceitos (conceitos previamente engolidos e não mastigados) existentes em seus frágeis psiquismos "normais".
Mas creio num tempo futuro, no qual a honestidade possa, acima da verdade, vigorar nas relações a fim de lidarmos com o que produzimos, seja lá o que for, como disse Renato Russo: "não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a gente".
A notícia deixa a sugestão que os "bad boys" teriam saído de uma rave e talvez estivessem alcoolizados o suficiente para que não possam responder responsavelmente pelo ocorrido. Ora, a bebida alccolica não cria nada, ela pode apenas rebaixar a crítica ou o auto-controle para que o que está latente encontre saída. Portanto o alcool nada cria de novo no psiquismo, somente "procria" o que fica guardado em compartimentos secretos. [A mesma construção de raciocínio poderia ser usada para pensarmos a TPM, apesar de se tratar de outro tipo de fenômeno, mas isso é papo pra outro post...]
É importante encontrarmos um lugar de pertencimento, de acolhida, de companheirismo e cumplicidade, tal qual esses jovens encontraram em seu meio. É bom termos amigos passionais... mas a cumplicidade do grupo em questão se revelou frágil ao serem confrontados com o resultado de seus atos. O primeiro moço encontrado pela polícia já delatou todos os outros. Abrem-se perguntas: Pra que "serve" um amigo? Até que ponto um amigo pode ser visto como cúmplice de algo que alguém decide fazer?
A construção de posicionamento responsável diante do outro, traduz-se num processo pra uma vida inteira. Esses jovens parecem estar há anos luz de distinguirem um outro que não seja a própria fantasia que se interpõe inevitavelmente ao se "ler" uma outra pessoa. O ocorrido com a moça no ponto de ônibus, delata uma fantasia da divisão clássica entre a "mulher santa e a puta", uma divisão que começa na infância do psiquismo masculino, que se preserva em imagens totais, e as vezes não encontra um desfecho favorável pro resto da vida.
Parece que os meninos justificaram o ato como: "desculpa aí, pensei que fosse uma vagabunda, não sabia se tratar de uma mulher que estava no ponto de ônibus pra ir no médico, porque, se fosse a prostituta, tudo se esclareceria, não?" Pra mim isso ainda choca! E sempre chocará porque não se trata de algo que se deve "acostumar", ainda que vigore dentro da "norma", do que há de comum na cultura vigente.
Será que alguma das gerações futuras poderá lidar melhor com essa cisão no afeto? Paralelamente existe uma quantidade significativa de mulher que veste um desses personagens na vida pública (e privada), reforçando essa fantasia purista da "santa" ou da "puta". Ninguém É santa ou puta, bandido ou herói, mas há quem se descreva e se posicione dentro de alguma dessas categorias maniqueístas, pra tentar se fazer reconhecer e respeitar, amar, pelo outro.
O imbróglio está posto: a camisa-de-força da famigerada "normalidade" privilegia certas ações (ou ações certas), esconde motivações e vela intensões que se constroem dentro das famílias, primeira célula social. É evidente que não funciona o "termômetro de sucesso" do ocidente que se norteia pelo êxito profissional e financeiro, entre posses, poses e rendas. Tudo que é visto como normal é apenas um constructo cultural em que a maioria está de acordo. É só isso. Antes desse ato bárbaro praticado por esses jovens, eles eram moços portadores de preconceitos (conceitos previamente engolidos e não mastigados) existentes em seus frágeis psiquismos "normais".
Mas creio num tempo futuro, no qual a honestidade possa, acima da verdade, vigorar nas relações a fim de lidarmos com o que produzimos, seja lá o que for, como disse Renato Russo: "não adianta querer mudar o mundo, temos que mudar a gente".
24/06/2007
do meu gosto
gosto de gente que tem gosto de gente
gente que tem gosto também traz desgosto
mas deixa um gosto de rosto que ninguém tem.
16/06/2007
Tributo ao Aparelho de Poesia
Pra quem não sabe, o Aparelho de Poesia é um evento que acontece todo mês no Caleidos Arte & Ensino. O Fábio elege um tema e sai fazendo uma pesquisa ampla que termina em leituras singulares compartilhadas. O poema abaixo estava inscrito no último evento... A propósito, o último Aparelho teve como tema "Sexy, Erótico e Pornô". Por ser um tema ousado, embora muito "usado", a presença foi baixa... Passados muitos anos desde o desvelamento dos segredos da sexualidade humana por Freud, parece que o tema ainda é tabu... infelizmente.
TESES
(de Paulo Leminsky)
eu
isóceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pisas
pode ser meu coração
TESES
(de Paulo Leminsky)
eu
isóceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pisas
pode ser meu coração
15/06/2007
Mário Quintana
"sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas"
ser ia
Seria a fala algo palpável?
Seria se o corpo for inflamável
Seria o amor algo rentável?
Sério não sei se seria
Seria se o corpo for inflamável
Seria o amor algo rentável?
Sério não sei se seria
11/06/2007
vazamento
Há algum tempo ouviam aquele barulho vindo do banheiro, um gotejar incessante, daqueles barulhos que, se não se toma cuidado, acaba acostumando os ouvidos. Era só pintar um silêncio mais prolongado que o barulho entrava em evidência.
Outro indicador era a conta da água, cada mês mais alta. Vazamentos não cuidados geram custos desnecessários e permanentes.
Ele tomou a iniciativa para abordar a questão:
_ Tá ouvindo?
_ Tá ouvindo o quê?
_ Esse gotejar que não pára! Barulho irritante!
_ Não tô ouvindo nada...
Ela sustentava a fantasia de que, enquanto não admitisse o barulho frente a ele, pudessem fazer de conta que o mesmo não existia. E estava funcionando bem! Colocavam música, ligavam a TV, permaneciam horas frente ao computador sem que as teclas deixassem de serem apertadas, falavam ao telefone, enfim ia tudo “muito bem”, até ele tocar naquele assunto.
_ Vou chamar um encanador – insistiu ele.
Ela se fingia de morta. Ele acreditava que ela estivesse mesmo, morta.
_ Já sei – disse ele - é só sairmos várias vezes de casa e nunca mais teremos tempo de ouvir o tal barulho.
E assim fizeram. Até começarem a ouvir o gotejar no cinema, no teatro, no barzinho...
Outro indicador era a conta da água, cada mês mais alta. Vazamentos não cuidados geram custos desnecessários e permanentes.
Ele tomou a iniciativa para abordar a questão:
_ Tá ouvindo?
_ Tá ouvindo o quê?
_ Esse gotejar que não pára! Barulho irritante!
_ Não tô ouvindo nada...
Ela sustentava a fantasia de que, enquanto não admitisse o barulho frente a ele, pudessem fazer de conta que o mesmo não existia. E estava funcionando bem! Colocavam música, ligavam a TV, permaneciam horas frente ao computador sem que as teclas deixassem de serem apertadas, falavam ao telefone, enfim ia tudo “muito bem”, até ele tocar naquele assunto.
_ Vou chamar um encanador – insistiu ele.
Ela se fingia de morta. Ele acreditava que ela estivesse mesmo, morta.
_ Já sei – disse ele - é só sairmos várias vezes de casa e nunca mais teremos tempo de ouvir o tal barulho.
E assim fizeram. Até começarem a ouvir o gotejar no cinema, no teatro, no barzinho...
tu
Sinto tremores. Olhos fixos. Os meus nos seus. Meu campo visual se restringe. Confusão. Entorno barulho. Tambores estouram. Dentro. Não sustento o olhar. Desvio. Você me procura. Você me convida quando sorri. Eu fico. E me deixo. Você me leva sem sairmos do lugar. Não quero saber onde. Soam sirenes, você está em todos os seus pedaços. Despedaço. Palavras não dão conta. Insistimos. Fala. Falo. Bebo. Bebe. Corpos misturados. Não queremos que acabe. Não sabemos continuar. Despeço. Vou dormir. Seu olhar me dorme na vigília.
tez
Tecido o amor
Em teia do humor
Ateia a tez
Humor só com amor
Amor só com humor
O humor e o amor
Deram-se as mãos
Pegam-se em mãos
Brincam e brigam
Reconstroem a ilusão.
Em teia do humor
Ateia a tez
Humor só com amor
Amor só com humor
O humor e o amor
Deram-se as mãos
Pegam-se em mãos
Brincam e brigam
Reconstroem a ilusão.
Os Incríveis e a Psicanálise
Li o texto da Maria Helena Fernandes sobre as complicações da mulher moderna na tentativa dos ajustes dos ideais na administração da vida, entitulado "A Mulher- Elástico". Penso que, além dos ideais enaltecidos pela cultura ocidental, tal qual o ideal de corpo magro citado, cada fragmento da cultura – grupos de pertencimento - privilegia alguns aspectos de manifestação ideal. Inevitavelmente assistimos ao filme no final de semana com as crianças e o evento se torna um meio propício pra discussões infindáveis, tal como Maria Helena citou. Sem cair no ridículo do maçante, pra não “matar a obra”, a linguagem dos filmes da Pixar parece evocar estímulos em níveis variados para a conversa em casa.
No filme Os Incríveis, são retratadas as várias crises que podem coabitar uma mesma constelação familiar. Cada um dos personagens foi descrito em sua peculiaridade psíquica e inter-relacional. É interessante observar como se estrutura a corrente com cada um dos elos que compõem essa cadeia familiar. A mudança de um dos membros – O Sr. Incrível – deflagra a necessidade de mudança sentida por todo o grupo. É incrível como tendemos a um estado de morbidez quando nos afastamos do que essencialmente compõe nosso desejo. As relações ficam “gastas”, o cotidiano se revela com peso e o brilho da vida fica confinado à obscuridade, como sinônimo de contravenção.
È interessante notar no filme, que a Mulher-elástico parece ser a primeira a “se adaptar” às solicitações da vida comum – e nem por isso menos importante – do trato com os filhos, da arrumação da casa, da necessidade da receita regular de quem provê o lar, da comida, do carinho, da constância. No entanto, assim que se torna explícita uma nova configuração, lá está ela antenada buscando uma interlocução que a confronte, ilustrada no filme através da intervenção da estilista “bageriana”. Faz as malas, carrega os filhos “sem perceber” a fim de lidar com a nova configuração.
Em posse do lugar elástico que a define, percebe que a autonomia da filha esteve prejudicada uma vez que a menina invisível não se encontrava em posse de suas habilidades, talvez à espera que a mãe retire a “mulher elástico” do armário, em busca de um modelo outro de identificação, que não o “puramente” materno.
É certo, como ressaltou a Maria Helena em seu texto, que a mulher moderna esteja se sentindo perdida em culpa na falta de cumprimento da rota de seus inúmeros anseios e demandas do meio. Mas talvez, por enquanto, ainda não esteja muito clara ao universo cultural masculino, a necessidade de exercitar a flexibilidade em detrimento da força ressaltada em todos os tempos. A mulher moderna deve ter força e flexibilidade, e o homem moderno?
As próximas gerações talvez nos respondam, ou talvez elaborem outras perguntas.
No filme Os Incríveis, são retratadas as várias crises que podem coabitar uma mesma constelação familiar. Cada um dos personagens foi descrito em sua peculiaridade psíquica e inter-relacional. É interessante observar como se estrutura a corrente com cada um dos elos que compõem essa cadeia familiar. A mudança de um dos membros – O Sr. Incrível – deflagra a necessidade de mudança sentida por todo o grupo. É incrível como tendemos a um estado de morbidez quando nos afastamos do que essencialmente compõe nosso desejo. As relações ficam “gastas”, o cotidiano se revela com peso e o brilho da vida fica confinado à obscuridade, como sinônimo de contravenção.
È interessante notar no filme, que a Mulher-elástico parece ser a primeira a “se adaptar” às solicitações da vida comum – e nem por isso menos importante – do trato com os filhos, da arrumação da casa, da necessidade da receita regular de quem provê o lar, da comida, do carinho, da constância. No entanto, assim que se torna explícita uma nova configuração, lá está ela antenada buscando uma interlocução que a confronte, ilustrada no filme através da intervenção da estilista “bageriana”. Faz as malas, carrega os filhos “sem perceber” a fim de lidar com a nova configuração.
Em posse do lugar elástico que a define, percebe que a autonomia da filha esteve prejudicada uma vez que a menina invisível não se encontrava em posse de suas habilidades, talvez à espera que a mãe retire a “mulher elástico” do armário, em busca de um modelo outro de identificação, que não o “puramente” materno.
É certo, como ressaltou a Maria Helena em seu texto, que a mulher moderna esteja se sentindo perdida em culpa na falta de cumprimento da rota de seus inúmeros anseios e demandas do meio. Mas talvez, por enquanto, ainda não esteja muito clara ao universo cultural masculino, a necessidade de exercitar a flexibilidade em detrimento da força ressaltada em todos os tempos. A mulher moderna deve ter força e flexibilidade, e o homem moderno?
As próximas gerações talvez nos respondam, ou talvez elaborem outras perguntas.
07/06/2007
enquanto isso, na natureza...
Não sei se assisti num filme ou li na Veja essa observação: Há uma espécie de pássaro que emite um lindo canto quando se motiva pela dança do acasalamento. A fêmea da espécie se aproxima afetada e emite algumas notas em concordância para que o encontro seja possível. A troca de canto se perpetua em simultânea aproximação física. No entanto, os especialistas observaram que, por alguma razão desconhecida, o macho estanca seus movimentos de aproximação e continua emitindo os sons concordantes, como se encantado da própria voz. A fêmea mantém o canto e o esforço na direção de encontro do macho na mata. Os pesquisadores notaram que algumas fêmeas localizam os machos da espécie e outras os perdem de vista, camuflados entre os próprios galhos.
05/06/2007
news
Foi um tempo
ar parado
idéias revoltas
ato cansado
Ares em luta
ato em arco
idéia resulta
passado enterrado
ar parado
idéias revoltas
ato cansado
Ares em luta
ato em arco
idéia resulta
passado enterrado
02/06/2007
:
Palavras amorosas nunca se atrelam à injúria da verdade, mas há que se erradicar no amor a falta de honestidade.
30/05/2007
29/05/2007
opacidade
"Espelho, espelho meu
Existe alguém mais belo que Eu?"
O espelho, já inconformado com tamanho auto-desconhecimento do sujeito responde:
"Não, alteza, tu és o magnânimo em Sua beleza."
Existe alguém mais belo que Eu?"
O espelho, já inconformado com tamanho auto-desconhecimento do sujeito responde:
"Não, alteza, tu és o magnânimo em Sua beleza."
28/05/2007
Beatriz
Bem te vi Helena
balbuciar fragmentos
ensaios de línguas
pontes entre estados.
Bem te vi à minha frente
cambalear sem dentes
cabecinha pendente
sorriso amplo
Bem te vi
alçar voos ousados
conquistar espaços
sair dos meus braços
à procura de gente
Quero te ver, meu presente,
na tua alquimia
de sentir e perceber
uma liga diferente
no mundo existente
que você reinventa
quando olha e comenta
sem a pretensão
de me comover.
Quero ouvir seu canto
abra seu bico,
me deixe em espanto!
Dance sobre o mundo
Ria a valer!
Chore também
quando preciso for
pra que não se esqueça
que o que vem pela dor
e se metabolizado for
transforma a existência...
E é o único jeito, querida,
Pra que você cresça.
Muito do que vem de você
me lembra a mim
numa versão melhorada,
talvez mais leve...
Mas é justamente
no que Bem não Vejo
que me flagro encantada,
ao ver algo de ti
que é seu, só seu,
construção da sua estrada,
que me remete à platéia
a te aplaudir admirada.
balbuciar fragmentos
ensaios de línguas
pontes entre estados.
Bem te vi à minha frente
cambalear sem dentes
cabecinha pendente
sorriso amplo
Bem te vi
alçar voos ousados
conquistar espaços
sair dos meus braços
à procura de gente
Quero te ver, meu presente,
na tua alquimia
de sentir e perceber
uma liga diferente
no mundo existente
que você reinventa
quando olha e comenta
sem a pretensão
de me comover.
Quero ouvir seu canto
abra seu bico,
me deixe em espanto!
Dance sobre o mundo
Ria a valer!
Chore também
quando preciso for
pra que não se esqueça
que o que vem pela dor
e se metabolizado for
transforma a existência...
E é o único jeito, querida,
Pra que você cresça.
Muito do que vem de você
me lembra a mim
numa versão melhorada,
talvez mais leve...
Mas é justamente
no que Bem não Vejo
que me flagro encantada,
ao ver algo de ti
que é seu, só seu,
construção da sua estrada,
que me remete à platéia
a te aplaudir admirada.
numericamente falha
Disseram que no meu início eram 2, mas entre 2, sem que soubessem, éramos 3.
Números enganam... Entre 2, aos sermos 3, vivíamos 5: Ele com o que imaginava de mim; Ela com o que suspeitava a meu respeito, e eu, que dependia dos 4 para um dia me fazer 1.
Cresci querendo ter 18. Aos 20 olhava o mundo de cima do meu salto 15, sentindo 50.
Quando o salto quebra, ando cambaleante, como se tivesse 1. Sentido esvaído.
Para reconstruir algum sentido, aprendi a trabalhar rápido logo aos 13. Fábrica de permanentes provisórios.
Mas aos 22 e aos 26, surgiram 2 que mudariam por completo a lógica do tempo. Barriga crescida, repleta de expectativa, alegria e medo. 2 que me impulsionam a quebrar rigidez de compreensão categórica do mundo. Isso cria lacunas e pede espera com pressa. Tempo de degustação e decantação.
Então me esforço em silêncio, quero En-canto.
Aparições fugazes que sustentam um toque, uma intersecção. Possibilidade de renovação.
Aos 36, fico à espreita dos encontros que promovam falta de palavras como aos 2.
Possíveis estréias na vida.
24/05/2007
nostalgia
A poesia saiu de férias?
Ou tá trancada, de castigo?
Tá amuada num cantinho?
Ou tá cansada do perigo?
Deve estar contida
debaixo do armário,
envolta num saquinho,
sem som, nem volume,
tal rosa sem espinho.
Talvez esteja à espreita,
(recostada num cabide,
enrolada num vestido)
de um sussurro que acredite.
Ou tá trancada, de castigo?
Tá amuada num cantinho?
Ou tá cansada do perigo?
Deve estar contida
debaixo do armário,
envolta num saquinho,
sem som, nem volume,
tal rosa sem espinho.
Talvez esteja à espreita,
(recostada num cabide,
enrolada num vestido)
de um sussurro que acredite.
20/05/2007
hysteria
Assisti nesses dias, pela quarta ou quinta vez, o espetáculo Hysteria do grupo XIX de Teatro. Trata-se de uma montagem fantástica, com uma pesquisa histórica apurada de formato poético muito belo. É sempre um novo espetáculo pois, a cada apresentação, o público define o tom de base da atmosfera. O público feminino é convidado a imergir na histeria, ao passo que o público masculino é convidado a se posicionar como platéia.
Outra peculiaridade se refere à incorporação das novidades vindas da platéia no roteiro. As atrizes são "repentistas" que denunciam a possibilidade de lidar com os imprevistos. Aliás são eles (os imprevistos) que constroem a trama do espetáculo. Trata-se de outra espécie de lógica no teatro. E na vida.
A peça se passa no final de 1800, numa época em que qualquer conduta feminina fora dos parâmetros do "bom tom" era considerada histérica. Ex: A moça namoradeira; a casada que não se conforma com a traição do marido; a que exige um plano afetivo mais presente a revelia do lugar de mãe. Todas "histéricas", depositadas num hospital psiquiátrico!
O que mais me assusta é que são apenas 100 anos que nos separam dessa miséria afetiva preconceituosa na cultura .... quanto dela será que ainda não vigora disfarçadamente?
Outra peculiaridade se refere à incorporação das novidades vindas da platéia no roteiro. As atrizes são "repentistas" que denunciam a possibilidade de lidar com os imprevistos. Aliás são eles (os imprevistos) que constroem a trama do espetáculo. Trata-se de outra espécie de lógica no teatro. E na vida.
A peça se passa no final de 1800, numa época em que qualquer conduta feminina fora dos parâmetros do "bom tom" era considerada histérica. Ex: A moça namoradeira; a casada que não se conforma com a traição do marido; a que exige um plano afetivo mais presente a revelia do lugar de mãe. Todas "histéricas", depositadas num hospital psiquiátrico!
O que mais me assusta é que são apenas 100 anos que nos separam dessa miséria afetiva preconceituosa na cultura .... quanto dela será que ainda não vigora disfarçadamente?
18/05/2007
Enfim Henfil
Li, há algum tempo, uma entrevista com o Henfil na Caros Amigos. Essa figura era realmente espetacular! Dentre outras revelações generosas, ao ser questionado sobre seu "poder visionário", Henfil respondeu com uma imagem certeira: " A Síndrome de galinha".
Para se fazer entender ao entrevistador, Henfil contou um trecho de sua história: Desde pequeno, em razão do quadro hemofílico, precisou desenvolver uma percepção apurada sobre eventuais perigos que corria, a fim de não se machucar, o que poderia se traduzir em morte. Então, desenvolveu uma defesa que nomeou da maneira descrita acima, justificada da seguinte forma: se observarmos uma galinha, veremos que elas se movimentam de maneira quase previsível. No entanto, num dado momento, elas alteram a conduta, mostram-se agitadas, sem motivos aparentes. Parecem desordenadas, andam de um lado pro outro, juntam os pintinhos.... depois de algum tempo, é batata! Uma tempestade disponta ao longe ou uma raposa finalmente se deixa ver. Ninguém mais percebia o perigo iminente, só as galinhas.
Henfil transformou vivências de perigos iminentes numa visão de mundo eminente! O trocadilho, aqui, vale a passagem da sobrevivência para a vivência de situações inusitadas e criativas. Ainda foi gente o suficiente para não se deixar instaurar num modelo idealizado de conduta: todo mundo vê as pingas que tomo; ninguém vê os tombos que levo!
Grande Pessoa!
Para se fazer entender ao entrevistador, Henfil contou um trecho de sua história: Desde pequeno, em razão do quadro hemofílico, precisou desenvolver uma percepção apurada sobre eventuais perigos que corria, a fim de não se machucar, o que poderia se traduzir em morte. Então, desenvolveu uma defesa que nomeou da maneira descrita acima, justificada da seguinte forma: se observarmos uma galinha, veremos que elas se movimentam de maneira quase previsível. No entanto, num dado momento, elas alteram a conduta, mostram-se agitadas, sem motivos aparentes. Parecem desordenadas, andam de um lado pro outro, juntam os pintinhos.... depois de algum tempo, é batata! Uma tempestade disponta ao longe ou uma raposa finalmente se deixa ver. Ninguém mais percebia o perigo iminente, só as galinhas.
Henfil transformou vivências de perigos iminentes numa visão de mundo eminente! O trocadilho, aqui, vale a passagem da sobrevivência para a vivência de situações inusitadas e criativas. Ainda foi gente o suficiente para não se deixar instaurar num modelo idealizado de conduta: todo mundo vê as pingas que tomo; ninguém vê os tombos que levo!
Grande Pessoa!
and now....
Lobão cantou que a vida é melhor vivida "10 anos a 1000, do que 1000 anos a 10". A novidade parece estar contida em cada momento, a cada ínfimo passo. Parece que o grande desafio é manter as papilas gustativas desentupidas. Um bate papo pode ser muito bom, um chocolate quente, uma música, um namoro, um passeio pela feira.
Manter o paladar apurado dá trabalho. Exige a saída do modelo urgente, de uma procura única de solução "para todos os males". Quando as experimentações estão acentadas no desespero (sem espera, urgente) o gosto das coisas torna-se enviesado... O que é doce, vira amargo. Parece que a língua se enrola toda e não consegue identificar de que alimento se trata.
O tumulto tem se agravado, nos últimos tempos, em virtude da impossibilidade de ficarmos recolhidos "pra balanço degustativo". Isso virou depressão; não se pode ficar simplesmente triste! Logo vem alguém que te diz: "Sai dessa! Vamos sair e nos divertir"; o que, noutras palavras, pode significar: não se ocupe do seu paladar, simplesmente engula!
É necessário pararmos de correr do que entra e sai da nossa própria boca.
Tempos difíceis...
Manter o paladar apurado dá trabalho. Exige a saída do modelo urgente, de uma procura única de solução "para todos os males". Quando as experimentações estão acentadas no desespero (sem espera, urgente) o gosto das coisas torna-se enviesado... O que é doce, vira amargo. Parece que a língua se enrola toda e não consegue identificar de que alimento se trata.
O tumulto tem se agravado, nos últimos tempos, em virtude da impossibilidade de ficarmos recolhidos "pra balanço degustativo". Isso virou depressão; não se pode ficar simplesmente triste! Logo vem alguém que te diz: "Sai dessa! Vamos sair e nos divertir"; o que, noutras palavras, pode significar: não se ocupe do seu paladar, simplesmente engula!
É necessário pararmos de correr do que entra e sai da nossa própria boca.
Tempos difíceis...
15/05/2007
Tempo
Essa poesia não é minha... Infelizmente desconheço a autora... Ouvi há muito tempo e não pude conservá-la na íntegra na memória (como tudo que a memória retém). Mas, na linha da homenagem, deixo aqui o que ficou:
Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Acho que a vida anda passando
Eu acho que a vida anda
Anda passando
Acho que há vida em mim...
E por falar em sexo,
Quem anda me comendo é o tempo
Se bem que já faz algum tempo
Que eu me escondia porque
Ele me pegava à força e por trás.
Até que um dia eu disse:
Tempo, se você tem que comer
Que seja me olhando nos olhos
E com meu consentimento
Acho que ganhei tempo...
De lá pra cá
Ele tem sido generoso comigo
Dizem que ando até remoçando
Eu acho que a vida anda passando a mão em mim
Acho que a vida anda passando
Eu acho que a vida anda
Anda passando
Acho que há vida em mim...
E por falar em sexo,
Quem anda me comendo é o tempo
Se bem que já faz algum tempo
Que eu me escondia porque
Ele me pegava à força e por trás.
Até que um dia eu disse:
Tempo, se você tem que comer
Que seja me olhando nos olhos
E com meu consentimento
Acho que ganhei tempo...
De lá pra cá
Ele tem sido generoso comigo
Dizem que ando até remoçando
08/05/2007
Ágata
Uma presença marcante que
Desperta o que adormeceu
Fez uma pergunta
Que muito me comoveu:
Menina, cadê Sua Língua:
O Gato Comeu?
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