Desde pequenos nosso convívio social nos é imposto; quando criança não escolhemos a família com a qual convivemos, nem a escola, nem a vizinhança... Na melhor das hipóteses, são anos a fio de tentativa de selecionar quem desse rol de fato nos importa, nos acrescenta, nos instiga. Mas aí... quando crescemos e podemos escolher, por exemplo, trabalhar num ambiente no qual os afetos sejam menos discrepantes, a cultura das organizações continua entendendo que os afetos são danosos e estimulam a política de "desafetação" preferindo não contratar amigos ou parceiros afetivos para trabalharem juntos.
No entanto, uma vez descoberto e habitado o mundo possível de relações colaborativas, fraternas e construtivas, não é mais possível engolir a imposição de convívio da infância... Atravessa-se uma fronteira e descobre-se que é possível a construção de espaços "sustentáveis" no mundo, porque muito se fala de sustentabilidade atualmente, mas pouco foco vejo nos projetos de sustentabilidade das relações próximas, com questões da ordem: constituo uma família sustentável, desenvolvo trabalho em ambiente sustentável, construo relações fraternas sustentáveis?
As coisas que me chamam atenção são muito miúdas... Facilmente classificáveis como "frescura" ou "viajantes" como ouvi há alguns dias de uma profissional da área psi, mas muito mais frequentes em ideologias pragmáticas, nas quais a construção relacional pouco valia recebe. Creio que relações sustentáveis ocorram quando os interlocutores partilham da observância desses "detalhes" de discurso e prática, não para concordarem entre si, mas para legitimar a presença viva de cada um na troca. Desqualificar os detalhes, desconsiderar as miudezas, desmerecer as sutis expressões do "sujeito do inconsciente" em meio ao formato egoico (EU SOU...) de cada um, é endossar práticas não sustentáveis dentro das relações.
E nesse mundo pasteurizado de EUs prontos, modo de Ser previsível, com falas obvias e compreensões vulgares, não cabe a intimidade. Esse inevitável mundo plastificado, é o mundo público, não o privado! E é aí que mora a escolha: que mundo quero como meu? em qual mundo aloco meu "eu" para morar com maior frequência? Há quem prefira o público... há quem prefira o privado...
E assim... vamos construindo mudanças necessárias.... e permanentes.
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